
Em 30 segundos
- Em 19 de abril de 2018, um robô da NOAA, a agência americana dos oceanos, achou uma poça de 1,2 metro no fundo do Golfo do México, a mais de mil metros de profundidade.
- Não é água comum. É salmoura: água muito mais salgada e mais pesada que a do mar, que não se mistura com ele e não tem oxigênio.
- Em volta, havia conchas de mexilhões mortos. E manchas no barranco mostravam por onde a salmoura já desceu, como uma cachoeira que secou.
Antes de piscar
Um lago dentro do mar
Debaixo do fundo do Golfo do México existe muito sal. Ele se depositou no período Jurássico. Segundo a NOAA, isso foi há mais de 180 milhões de anos.
Com o tempo, esse sal sobe por dentro das rochas. Quando encosta na água do mar, se dissolve. O resultado é a salmoura, uma água carregada de sal.
A salmoura é mais pesada que a água do mar. Por isso escorre pelo fundo e se junta nos buracos. Forma poças e lagos no fundo do oceano. A NOAA descreve esses lagos com superfície e margem próprias.
Segundo a organização de pesquisa OceanX, essa água é de três a oito vezes mais salgada que a do mar. Como não se mistura com a água de cima, fica sem oxigênio.
Peixes, caranguejos e outros bichos que entram nela costumam ficar atordoados ou morrer. Lagos assim já foram achados no Golfo do México, no Mar Mediterrâneo e no Mar Vermelho.

Mas a margem desses lagos pode ser cheia de vida. A salmoura costuma trazer muito gás metano. Mexilhões do fundo do mar vivem com bactérias que se alimentam desse gás. Por isso eles se juntam na beira, em grandes bancos.
O instante
Uma poça azul no meio do caminho
Em abril de 2018, o navio Okeanos Explorer, da NOAA, saiu para explorar o fundo do Golfo do México. A expedição durou de 11 de abril a 3 de maio.

Quem desce é um robô sem ninguém dentro, o Deep Discoverer. Ele fica preso ao navio por um cabo longo e é pilotado lá de cima. Pode chegar a 6.000 metros de profundidade.
Em 19 de abril de 2018, no sexto mergulho da expedição, o robô foi a uma área chamada Hidalgo Basin. Chegou ao fundo a 1.095 metros. Logo encontrou tapetes de bactérias e mexilhões, uns vivos, outros mortos.
O geólogo Adam Skarke, da Universidade Estadual do Mississippi, contou depois, num relato publicado pela NOAA, o que a equipe viu.

Na metade do mergulho, segundo Skarke, o robô passou por uma pequena elevação. Do outro lado havia um buraco no sedimento. No fundo dele, uma poça pequena de água azul escura, cercada de conchas brancas.
Na sala de controle, conta ele, a equipe reconheceu na hora: era uma poça de salmoura. Tinha cerca de 1,2 metro de largura. Havia conchas de mexilhões mortos em volta e também debaixo da salmoura.
Em números
- 1,2 m de largura da poça
- 1.095 m de profundidade onde o robô chegou ao fundo
- 23 dias de expedição
- 6.000 m é o limite do robô Deep Discoverer
Num piscar de olhos
A cachoeira que secou
Então a câmera do robô subiu, olhando o barranco acima da poça. O chão ali era cor de areia. Mas tinha faixas compridas, cinza-azuladas e quase pretas, descendo até a poça.

Siga as manchas. As faixas escuras no barranco são sedimento manchado pela salmoura. Elas apontam o caminho que a água salgada fazia até a poça.
Para a equipe, as manchas marcavam o caminho da salmoura que escorria de cima, pelo barranco, até a poça. Era uma cachoeira debaixo do mar. Só que ela não corria mais: a NOAA a registrou como uma “cachoeira de salmoura extinta”.
Logo depois da poça, o robô passou por um grande banco de conchas de mexilhões mortos. Para Skarke, as conchas mortas em volta da poça e dentro dela indicam que ali já existiu uma comunidade viva, que não está mais ativa.
Mas nem tudo estava morto. Na mesma área, o robô também filmou mexilhões vivos.
- 11 abr 2018 Começa a expedição do Okeanos Explorer no Golfo do México.
- 19 abr 2018 No sexto mergulho, o robô acha a poça e a cachoeira seca.
- 27 abr 2018 A NOAA publica o relato de Adam Skarke, “Uma cachoeira debaixo do mar”.
- 3 mai 2018 Fim da expedição.
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Depois
Poças que matam, pistas da vida
A poça do Golfo do México é pequena. Existem lagos de salmoura bem maiores, e não só ali.

Em 2022, cientistas da Universidade de Miami e da OceanX descreveram poças de salmoura a 1.770 metros, no Golfo de Aqaba, no norte do Mar Vermelho. Sem oxigênio e muito salgadas, mas cheias de micróbios.
Em 22 de setembro de 2026, a revista Eos, da União Geofísica Americana, noticiou um novo estudo sobre poças de salmoura do Mar Vermelho, publicado na revista científica AGU Advances.
Os pesquisadores compararam uma poça ativa, a cerca de 1.770 metros, com uma poça “extinta”, a cerca de 1.400 metros, que já perdeu a salmoura. A ativa estava cheia de bactérias e arqueias, micróbios bem simples.
Esses micróbios parecem tirar energia do manganês e do ferro, sem precisar de muito oxigênio. Em alguns pontos, o fundo das poças tinha até 100 vezes mais desses metais que o fundo comum ao redor.
Por isso, os autores acham que lugares assim podem mostrar como a vida se virava antes de a Terra ter oxigênio de sobra, há mais de 2 bilhões de anos. É uma hipótese. Segundo a Eos, os próprios autores dizem que é preciso pesquisar mais.
De olhos abertos
O que ainda não se sabe
Por que a cachoeira parou?
A NOAA não explica. O relatório do mergulho diz só que as manchas “pareciam” mostrar o caminho antigo da salmoura. As fontes consultadas não dizem quando ela deixou de correr.
O que matou os mexilhões?
Também não se sabe. As conchas mortas indicam que a comunidade já foi ativa e não é mais. Mas a causa não foi apontada. E havia mexilhões vivos na mesma área.
A vida começou num lugar assim?
Ninguém sabe. O estudo de 2026 mostra que micróbios vivem bem nessas poças e usam metais para obter energia. Daí a ideia de que algo parecido pode ter acontecido nos oceanos antigos. Ainda é hipótese, não certeza.
Verdade ou lenda?
“Nada sobrevive numa poça de salmoura.”
Em parte Peixes e caranguejos que entram costumam ficar atordoados ou morrer. Mas micróbios vivem lá dentro, e mexilhões fazem bancos na margem.
“Existe lago com margem no fundo do mar.”
Verdade A salmoura é mais pesada que a água do mar e não se mistura com ela. A NOAA descreve esses lagos com superfície e margem, como um lago em terra firme.
Fontes desta história
- NOAA Ocean Exploration. “Dive 06: Hidalgo Basin”, atualização diária de 19 de abril de 2018, expedição Gulf of Mexico 2018.
- Adam Skarke (Universidade Estadual do Mississippi). “A Waterfall Under the Sea”, NOAA Ocean Exploration, 27 de abril de 2018.
- NOAA Ocean Exploration. Página da expedição Gulf of Mexico 2018; vídeo “Dive 06: Waterfalls in the Deep”; vídeo “Exploring Seep Scapes”; imagens do dia “Brine Waterfall” e “Mussels”.
- NOAA Ocean Exploration. Relatório de amostras do mergulho 6, 19 de abril de 2018.
- NOAA Ocean Exploration. “Deep Discoverer”, página sobre o robô.
- Bob Carney (Universidade Estadual da Louisiana). “Brine Pool”, NOAA Ocean Explorer, expedição Gulf of Mexico 2002.
- OceanX. “Brine Pools: The Deep Sea’s Most Mysterious Ecosystems”, 1º de dezembro de 2025.
- Eos. “Waves of Deadly Brine Can Slosh After Submarine Landslides”, Katherine Kornei, 28 de janeiro de 2019.
- Cosmos Magazine. “Aqaba Red Sea brine pools”. Sci.News, “Marine Researchers Discover Deep-Sea Complex of Brine Pools in Red Sea”, 18 de julho de 2022 (estudo de S. J. Purkis e colegas na Communications Earth & Environment).
- Eos. “Briny ‘Death Pools’ Hold Clues to Early Life”, Rebecca Dzombak, 22 de setembro de 2026 (estudo de Chakraborty e colegas na AGU Advances).
- Gizmodo. “Scientists Found a Deep-Sea Death Pool That Vanished”, Matthew Phelan, 25 de setembro de 2026.
- Wikipedia. “NOAAS Okeanos Explorer Gulf of Mexico 2018 Expedition” e “Brine pool” (usadas só para conferir datas e nomes, junto com as fontes acima).
Fontes consultadas em 10 de outubro de 2026.
Créditos das imagens
1 NOAA Office of Ocean Exploration and Research, Gulf of Mexico 2018, 19 de abril de 2018. 2 NOAA-OER/BOEMRE, expedição Lophelia II, 2010. 3 NOAA Office of Ocean Exploration and Research, Exploring Puerto Rico’s Seamounts, Trenches, and Troughs, 10 de abril de 2015. 4 NOAA Office of Ocean Exploration and Research, Gulf of Mexico 2018. 5 NOAA Ocean Exploration, Gulf of Mexico 2018. 6 NOAA Ocean Exploration, Exploration of the Gulf of Mexico 2014.
As imagens 1, 2, 3 e 4 vieram do Wikimedia Commons e estão em domínio público, como obras do governo dos EUA. As imagens 5 e 6 vieram do site da NOAA Ocean Exploration, que pede o crédito da legenda e só restringe imagens marcadas com “copyright”, o que não é o caso. Nenhuma foi feita por inteligência artificial nem recortada. Só mudaram o tamanho, o contraste e o tom.



