
Em 30 segundos
- Em 30 de agosto de 2023, um robô da NOAA, a agência americana dos oceanos, achou uma bola dourada de uns 10 cm grudada numa rocha, a 3.250 metros de profundidade.
- Ninguém a bordo soube dizer o que era. Os palpites foram esponja, coral e casca de ovo.
- Em abril de 2026, cientistas disseram que é o resto da base de um bicho parecido com uma anêmona gigante, a Relicanthus daphneae. O estudo ainda não passou pela revisão de outros cientistas.
Antes de piscar
Um robô no escuro, ao vivo pela internet
Em 2023, o navio Okeanos Explorer, da NOAA, fazia uma série de expedições para mapear e filmar o fundo do mar do Alasca. Uma delas se chamava Seascape Alaska 5, no Golfo do Alasca.

Do navio desce um robô sem tripulantes, o Deep Discoverer. Ele tem luzes, câmeras, um braço mecânico e um tubo que suga amostras, como um aspirador. Os pilotos controlam tudo de dentro do navio.
Os mergulhos eram transmitidos ao vivo pela internet. Qualquer pessoa podia assistir.
O instante
Um “chapéu amarelo” na rocha
Era 30 de agosto de 2023, o sétimo mergulho da expedição. O robô passava por uma rocha cheia de esponjas brancas quando a câmera mostrou uma coisa lisa, dourada, em forma de domo.
Segundo a NOAA, um cinegrafista a bordo chamou aquilo primeiro de “chapéu amarelo”. Tinha cerca de 10 centímetros e estava bem grudado na pedra. Perto da base, um furo mostrava que por dentro era da mesma cor.
Procure o furo. Volte à primeira foto e olhe a parte de baixo do orbe, do lado da rocha. É ali que aparece o buraco.
Na transmissão, os cientistas pensaram alto. Uma esponja morta? Um coral? Uma casca de ovo de algum bicho do fundo do mar? Segundo a imprensa, os pesquisadores compararam a cena ao “começo de um filme de terror”.

A equipe decidiu levar o orbe. O robô usou o tubo de sucção e trouxe a peça para o navio.

Nem assim deu para saber o que era. Em 7 de setembro de 2023, a NOAA admitiu: só se sabia que tinha origem biológica. Podia ser uma espécie nova, uma conhecida ou uma fase da vida de algum bicho que ninguém tinha visto. A imprensa batizou a peça de “orbe dourado” e “ovo dourado”.
Em 2023, a NOAA falou em cerca de 3.300 metros de profundidade. O estudo de 2026 registra 3.250 metros, número que a NOAA passou a usar.
Em números
- 3.250 m de profundidade
- 10 cm de largura, mais ou menos
- 4.000 espécies possíveis depois do microscópio
- 2 anos e 7 meses até a resposta
Num piscar de olhos
A investigação no museu
O orbe foi para o Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, em Washington. Lá funciona o laboratório de classificação de espécies da NOAA, dirigido pelo zoólogo Allen Collins. Ele é um dos autores do estudo, junto com o biólogo do Smithsonian Steven Auscavitch e outros cientistas.

- 1º passo Procuram boca, músculos, intestino. Não acham nada disso.
- 2º passo No microscópio, aparecem espirocistos, um tipo de cápsula pegajosa da família das células de ferroar que só existe num grupo de animais marinhos que inclui as anêmonas e os corais duros. A lista cai para cerca de 4.000 espécies.
- 3º passo O primeiro teste de DNA não resolve. Provavelmente porque havia DNA de outros seres microscópicos misturado na amostra.
- 4º passo Leem o genoma inteiro. Aparece muito material genético de uma espécie: a Relicanthus daphneae.
- 5º passo Comparam com uma peça parecida, coletada em 2021 pelo navio Falkor, do Schmidt Ocean Institute. As duas batem.
O estudo foi publicado como preprint no site bioRxiv em 21 de abril de 2026. A NOAA anunciou o resultado no dia seguinte, 22 de abril. Do achado até a resposta, foram 2 anos, 7 meses e 23 dias.
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Depois
Não era um ovo. Era o “pé” de um bicho
O orbe não é um ser vivo. É uma camada resistente que o animal produz embaixo da base, como uma cola, para se prender na rocha. Os cientistas chamam isso de cutícula. O bicho foi embora ou morreu, e a “sola” ficou.
O dono da sola é a Relicanthus daphneae. Os tentáculos dela chegam a cerca de 2 metros. Vive no fundo do mar e costuma ser vista perto de fontes hidrotermais, rachaduras por onde sai água quente.

No estudo, os cientistas mostram fotos de cutículas parecidas embaixo de animais vivos da mesma espécie. Também acharam cutícula num exemplar coletado em 2012 no oceano Austral.
Para os autores, os resultados “encerram o caso do orbe dourado”. O diretor interino da NOAA Ocean Exploration, William Mowitt, resumiu assim: “É por isso que a gente continua explorando.”
De olhos abertos
O que ainda não se sabe
Onde foi parar o resto do animal?
Ninguém sabe. Pode ter morrido. Pode ter se soltado, andado e se prendido em outro lugar. A NOAA admite que talvez nunca se saiba.
Por que a forma de bola, e por que o furo?
Os próprios autores escrevem que explicar o formato do orbe “continua um problema difícil”. Uma ideia é que tenha a ver com a reprodução: alguns bichos desse grupo largam um pedaço da base, que vira outro animal. Mas não há prova de que esta espécie faça isso. E nenhuma das fontes explica o furo.
É mesmo uma anêmona?
Nem isso é certo. A espécie foi descrita em 2006 como uma anêmona gigante, com outro nome. Em 2014, um estudo do Museu Americano de História Natural disse que ela não era anêmona e merecia um grupo próprio. Em 2019, outro estudo do mesmo museu a pôs de volta entre as anêmonas, num subgrupo só dela. Em 2026, o biólogo Jon Copley, da Universidade de Southampton, que não participou do trabalho, falou em “animal parecido com anêmona”.

Leia a ficha. No arquivo da NOAA, a legenda desta foto começa em dúvida: “Uma anêmona grande? Ctenóforo?”. E termina assim: “Na verdade, Relicanthus daphneae, que não é uma anêmona.”
O resultado já está confirmado?
Ainda não por completo. O trabalho é um preprint: foi divulgado antes da revisão de outros cientistas, que é o passo normal antes de sair numa revista científica. Até 10 de outubro de 2026, a página do estudo no bioRxiv não indicava publicação em revista.
Por que quase nunca se vê essa “sola”?
Os animais coletados raramente vêm com a cutícula. Os autores acham que ela pode ficar para trás quando o bicho se solta. E a cor dourada ajudou: sem ela, dizem os cientistas, o orbe dificilmente teria sido coletado.
Verdade ou lenda?
“Era um ovo dourado.”
Falso Casca de ovo foi um dos palpites de 2023, e a imprensa chegou a chamar o achado de “ovo dourado”. O estudo de 2026 mostrou que é a cutícula da base de um animal.
“O orbe era um ser vivo.”
Falso Segundo os autores, é um resto deixado pelo animal, não um organismo. Mas a análise achou nele DNA de muitos micróbios.
Fontes desta história
- NOAA. “Scientists reveal identity of mysterious golden orb collected during NOAA expedition”, 22 de abril de 2026.
- NOAA Ocean Exploration. “Unidentified Golden Specimen Captures Public Imagination”, 7 de setembro de 2023; galeria da expedição Seascape Alaska 5 (EX2306), mergulho 07.
- Auscavitch, S. R., Reft, A. e outros, com Collins, A. G. “The Curious Case of the Golden Orb: Relict of Relicanthus daphneae (Cnidaria, Anthozoa, Hexacorallia), a deep sea anemone”. Preprint, bioRxiv, 21 de abril de 2026 (doi 10.64898/2026.04.17.719276).
- Smithsonian Magazine. Sarah Kuta, “Scientists Found This Mysterious Golden Orb on the Seafloor Nearly Three Years Ago. Now, They Finally Know What It Is”, 28 de abril de 2026.
- Live Science. Chris Simms, “Mystery of golden orb found in depths of ocean off Alaska finally solved”, 27 de abril de 2026.
- ScienceAlert. Michelle Starr, “Mysterious Golden Orb at the Bottom of the Ocean Finally Identified”, 23 de abril de 2026.
- Sci.News. Natali Anderson, “Marine Biologists Solve Mystery of Deep-Sea ‘Golden Orb’”, 24 de abril de 2026.
- KCAW / KTOO (rádio pública do Alasca). Hope McKenney, “Scientists identify mysterious ‘golden orb’ discovered off Alaska’s coast”, 28 de abril de 2026.
- EarthSky. “What is this weird golden orb from the seafloor?”, 25 de setembro de 2023. NPR, “Scientists stumped by shiny golden egg discovered in deep sea”, 12 de setembro de 2023. The Weather Network, “The ‘start of a horror movie?’ Mysterious orb found on deep sea expedition”, 15 de setembro de 2023.
- Museu Americano de História Natural (AMNH). “Sea Anemone Tree of Life Reveals Giant Species as Impostor”, 7 de maio de 2014; “Mystery Marine Organism Identified as Giant Sea Anemone”, 12 de dezembro de 2019.
- Rodríguez, E. e outros, PLOS ONE, 2014. Xiao, M. e outros, Scientific Reports, 2019. Daly, M., Marine Biology, 2006 (descrição da espécie).
Fontes consultadas em 10 de outubro de 2026.
Créditos das imagens
1, 3 e 4 NOAA Ocean Exploration, expedição Seascape Alaska 5, 30 de agosto de 2023. 2 NOAA, agosto de 2008. 5 NOAA Fisheries, laboratório do Smithsonian; via Wikimedia Commons. 6 NOAA Ocean Exploration, Deepwater Exploration of the Marianas, 2016; via Wikimedia Commons. 7 NOAA Okeanos Explorer Program, 2016 Deepwater Exploration of the Marianas, Leg 3, 29 de junho de 2016; Biblioteca de Fotos da NOAA (expn7312), via Wikimedia Commons.
Todas as imagens foram feitas pela NOAA, agência do governo dos EUA, e estão em domínio público. Nenhuma foi feita por inteligência artificial nem recortada. Só mudaram o tamanho, o contraste e o tom.



