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Informação num piscar de olhos.

Observações de fevereiro de 2025 a maio de 2026; estudo divulgado em 15 de setembro de 2026

De onde vem o sinal de rádio captado de um planeta fora do Sistema Solar?

Um radiotelescópio na África do Sul captou pulsos de rádio vindos do planeta Beta Pictoris b, a 63 anos-luz. Veja quem está por trás do sinal e o que ele revela.

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Leitura de 9 minutos

Fontes no fim

Fileira de antenas parabólicas brancas do radiotelescópio MeerKAT num campo seco, sob céu claro.
Cabo Setentrional, África do Sul, maio de 2018. Antenas do MeerKAT, o radiotelescópio que captou o sinal. Foto: SKAO/SARAO

Em 30 segundos

  1. Um radiotelescópio na África do Sul captou pulsos de rádio vindos de Beta Pictoris b, um planeta gigante a cerca de 63 anos-luz da Terra.
  2. Segundo os autores, é a primeira vez que um sinal de rádio é ligado com clareza a um planeta fora do Sistema Solar, e não à estrela dele.
  3. O estudo saiu em setembro de 2026 e ainda não passou pela revisão de outros cientistas.

Antes de piscar

Um planeta gigante que já tinha sido fotografado

Beta Pictoris é uma estrela da constelação do Pintor. Tem cerca de 75% mais massa que o Sol e é muito jovem: uns 23 milhões de anos.

Em volta dela gira Beta Pictoris b, um gigante de gás com 10 a 12 vezes a massa de Júpiter. Fica a cerca de 10 vezes a distância entre a Terra e o Sol, mais ou menos onde Saturno fica no nosso sistema. Leva uns 24 anos para dar uma volta na estrela.

Imagem infravermelha de um disco de poeira visto de lado, com a estrela tapada no centro e um ponto fraco junto ao disco.
Imagem divulgada em novembro de 2008. O disco de poeira de Beta Pictoris visto em luz infravermelha, com a estrela apagada no centro. O pontinho fraco alinhado ao disco, mais de mil vezes mais fraco que a estrela, é o planeta. ESO/A.-M. Lagrange et al.

O planeta foi visto pela primeira vez em imagens de 2003 do Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile. A descoberta foi anunciada em 2008. A confirmação veio em 2010, quando o ponto apareceu do outro lado da estrela.

Ou seja: é um dos poucos planetas de outra estrela que dá para fotografar direto. Mas ouvir um planeta assim pelo rádio era outra história. Até agora, nenhum sinal de rádio tinha sido ligado sem dúvida a um planeta, e não à estrela dele.

Houve pistas. Em 2023, por exemplo, astrônomos captaram um sinal de rádio repetido da estrela YZ Ceti, a uns 12 anos-luz. Eles suspeitaram que um planeta pequeno ajudava a provocar o sinal. Mas o rádio vinha da estrela, e o próprio grupo disse que faltava confirmação.

Sequência de imagens de um ponto claro que muda de posição ao lado de um círculo escuro no centro.
De 2014 a 2016, e depois. Imagens do VLT juntadas numa só mostram Beta Pictoris b andando na órbita. ESO/Lagrange/SPHERE consortium

Procure o planeta. A estrela está escondida atrás de uma máscara, no centro. O ponto claro que muda de lugar é Beta Pictoris b.

Em números

  • 63 anos-luz da Terra, aproximadamente
  • 10 a 12 vezes a massa de Júpiter
  • 24 anos para uma volta na estrela
  • 64 antenas no MeerKAT

O instante

Pulsos de rádio no deserto sul-africano

O MeerKAT tem 64 antenas, cada uma com 13,5 metros de diâmetro. Fica a cerca de 90 quilômetros da cidade de Carnarvon, no Cabo Setentrional. Trabalhando juntas, as antenas funcionam como um só telescópio gigante.

Segundo o estudo, a equipe apontou o MeerKAT para Beta Pictoris em quatro sessões, entre fevereiro de 2025 e maio de 2026.

  • 15/02/2025 Primeira sessão, feita dentro de uma busca mais ampla. Nela surge a primeira detecção.
  • 31/05/2025 Mais de nove horas de escuta. Aparecem pulsos repetidos.
  • 20/02/2026 Nova sessão, em frequências mais altas.
  • 02/05/2026 Um novo pulso, em frequência mais alta. É dele que sai a medida do campo magnético.
  • 15/09/2026 O estudo é publicado no arXiv, site de pré-publicações.

Datas das sessões e dos pulsos tiradas do próprio estudo. Ele não informa a hora exata de cada pulso.

Os autores descrevem pulsos rápidos e repetidos, além de um sinal fraco e constante. As ondas chegavam “torcidas”, girando como um saca-rolhas, o que os físicos chamam de polarização circular. É uma marca típica de rádio produzido perto de ímãs muito fortes.

Faltava provar de onde vinha. Vistos daqui, a estrela e o planeta ficam quase colados: no máximo 0,55 segundo de arco, um pedacinho minúsculo do céu. A equipe mediu a posição do sinal tomando como referência quasares, objetos muito distantes que servem de pontos fixos no céu.

Resultado: o sinal saía do ponto onde está o planeta, não da estrela. Ajudou o fato de Beta Pictoris ser uma estrela “magneticamente quieta”, sem a atividade que costuma produzir rádio.

Então, quem estava “transmitindo”? “Quando as pessoas leem ‘sinal de rádio de um exoplaneta’, pensam em alienígenas”, disse a astrônoma Yvette Cendes, da Universidade do Oregon, uma das autoras, à revista Science News.

Num piscar de olhos

A resposta estava no céu do planeta: auroras

Não é ET. “Definitivamente não são alienígenas!”, afirmou à Live Science a astrofísica Suzanne Aigrain, da Universidade de Oxford, que não participou do estudo.

Para os autores, o rádio sai de auroras, as mesmas luzes do céu polar da Terra. Funciona assim: partículas com carga elétrica são aceleradas pelo campo magnético do planeta. Ao descer em espiral perto dos polos, emitem ondas de rádio.

Não é novidade no nosso quintal. Júpiter, o planeta com o campo magnético mais forte do Sistema Solar, emite ondas de rádio potentes. A Terra também: acima das zonas de aurora, nasce um rádio que se ouve do espaço.

Júpiter com um anel azulado de luz em volta do polo norte.
Comparação: aurora em Júpiter, 2016. Montagem do telescópio Hubble: a aurora, em ultravioleta, foi posta sobre uma foto de Júpiter feita em outra data. NASA, ESA e J. Nichols (Universidade de Leicester)

Uma diferença: em Júpiter, as auroras reagem ao vento solar, e parte do rádio é provocada pela lua Io. Os autores testaram as duas ideias em Beta Pictoris b. Concluíram que nenhuma dá conta de um sinal tão forte. A energia teria de vir do próprio planeta, que gira rápido: um dia lá dura de 8 a 9 horas.

Faixa de luz verde sobre a curva da Terra, vista do espaço à noite.
Comparação: aurora na Terra, 17 de setembro de 2011. Foto feita por astronautas da Estação Espacial Internacional. NASA

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Depois

Um ímã milhares de vezes mais forte que o da Terra

O sinal traz um bônus. A frequência mais alta das ondas de rádio indica a força do campo magnético. Pelo pulso de frequência mais alta, a equipe calcula pelo menos 1.250 gauss no planeta. O gauss é a unidade usada para medir campo magnético.

Pelo menos 1.250 gauss. A Terra tem cerca de meio.

Júpiter, recordista do Sistema Solar, fica na casa de poucos gauss na superfície. “É um campo magnético incrivelmente, incrivelmente forte, muito mais forte que qualquer coisa no Sistema Solar”, disse Cendes à Science News.

Os autores dizem que é a primeira medida direta da força do campo magnético de um planeta fora do Sistema Solar. Segundo a Science News, o número bate com o que se espera de um planeta tão pesado.

Desenho de um planeta gigante alaranjado diante de um disco de poeira iluminado por uma estrela brilhante.
Ilustração. Como Beta Pictoris b pode ser, dentro do disco de poeira da estrela. É um desenho de artista, não uma foto. Ilustração: ESO/L. Calçada

Por que isso importa? Campo magnético é escudo. “Na Terra, o campo magnético teve papel-chave em reter a atmosfera”, lembrou Aigrain. Saber medir esse escudo de longe ajuda, no futuro, a avaliar se um planeta pode guardar ar e água.

Beta Pictoris b não é um desses candidatos: é uma bola de gás jovem e quente. Mas serviu de teste. O próximo passo depende de radiotelescópios mais sensíveis, como o SKA, uma rede em construção da qual o MeerKAT vai fazer parte.

De olhos abertos

O que ainda não se sabe

O resultado vai se confirmar?

Ainda não se sabe. Até 10 de outubro de 2026, o estudo continuava como pré-publicação, sem revisão de outros cientistas. “Esse resultado, se resistir à revisão, é um avanço incrivelmente empolgante”, disse à Science News o astrônomo Joe Callingham, da Universidade de Amsterdã, que não participou do trabalho.

O sinal pisca no ritmo do planeta?

É a prova que falta. Uma aurora gira com o planeta, entrando e saindo de vista. Callingham diz que a confirmação viria de pulsos no mesmo compasso da rotação. No estudo, o primeiro e o terceiro pulsos de maio de 2025 vieram com cerca de 8 horas de intervalo, perto da duração do dia do planeta. Os autores dizem só que isso “pode ser” esse sinal.

De onde vêm as partículas da aurora?

O estudo não fecha a questão. Levanta duas hipóteses: partículas arrancadas da própria atmosfera do planeta ou gás capturado do disco de poeira em volta da estrela.

Fundo escuro com um ponto claro ao lado de uma faixa fina e de um círculo preto no centro.
Imagem divulgada em maio de 2014. Beta Pictoris b, o ponto claro, numa das primeiras imagens do instrumento Gemini Planet Imager, no Chile. A estrela está tapada por uma máscara. International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA/NRC Canada/Processing by Christian Marois

Dá para ouvir outros planetas assim?

Talvez. Segundo os autores, com radiotelescópios de 5 a 7 vezes mais sensíveis, outros sete planetas gigantes já fotografados ficariam ao alcance. Monitorar Beta Pictoris b por mais tempo também pode mostrar como o ímã do planeta está inclinado.

Verdade ou lenda?

“Captaram uma mensagem de alienígenas.”

Falso O sinal é natural. Os autores o atribuem a auroras, e cientistas de fora do estudo concordam que não há nada de vida nele.

“É o primeiro sinal de rádio de um planeta de outra estrela.”

Provável Houve indícios antes, mas indiretos. Aigrain chamou este de “a primeira detecção direta realmente convincente”. Falta a revisão de outros cientistas.

Fontes desta história

  1. K. N. Ortiz Ceballos, E. Berger e Y. Cendes. “Discovery of radio emission from the exoplanet β Pictoris b”. Pré-publicação, arXiv:2609.16720, 15 de setembro de 2026.
  2. Science News. “First radio waves seen from an exoplanet hint at otherworldly auroras”, Emily Conover, 21 de setembro de 2026.
  3. BBC Sky at Night Magazine. “Radio signals detected from a planet beyond our Solar System”, Iain Todd, 22 de setembro de 2026.
  4. Live Science. “Astronomers detected radio signals coming from an exoplanet for the first time”, Pandora Dewan, 23 de setembro de 2026.
  5. Sci.News. “Astronomers Detect Radio Signal from Beta Pictoris b”, Enrico de Lazaro, 28 de setembro de 2026.
  6. ESO. Comunicados eso0842 (21 de novembro de 2008) e eso1024 (“Exoplanet Caught on the Move”, 10 de junho de 2010); foto da semana potw1846a (12 de novembro de 2018).
  7. NASA. Catálogo de exoplanetas, “Beta Pictoris b”; ficha técnica de Júpiter (NSSDC); “NASA’s Juno Tunes Into Jovian Radio”, 15 de julho de 2021; Hubble, auroras de Júpiter, 30 de junho de 2016.
  8. ESA. “Beamed radio emission from Earth”, missão Cluster, 27 de junho de 2008.
  9. SARAO (Observatório de Radioastronomia da África do Sul). “About MeerKAT”. Engineering News, 13 de julho de 2018 (inauguração do MeerKAT).
  10. Universidade do Colorado em Boulder e NSF (EUA), 3 de abril de 2023 (o sinal da estrela YZ Ceti).

Fontes consultadas em 10 de outubro de 2026.

Créditos das imagens

1 Square Kilometre Array Organisation (SKAO) / South African Radio Astronomy Observatory (SARAO), 2018; licença CC BY 3.0. 2 ESO/A.-M. Lagrange et al., 2008; CC BY 4.0. 3 ESO/Lagrange/SPHERE consortium, 2018; CC BY 4.0. 4 NASA, ESA e J. Nichols (Universidade de Leicester), 2016; domínio público. 5 NASA, Expedição 29 da Estação Espacial Internacional, foto ISS029-E-8429, 2011; domínio público. 6 Ilustração: ESO/L. Calçada, 2010; CC BY 4.0. 7 International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA/NRC Canada/Processing by Christian Marois, 2014; CC BY 4.0.

As imagens vieram do Wikimedia Commons, com a licença conferida na ficha de cada uma. As licenças Creative Commons (CC BY) permitem uso, inclusive comercial, com crédito ao autor. A imagem 6 é um desenho de artista; a 4 é uma montagem do Hubble. Nenhuma foi feita por inteligência artificial nem recortada. Só mudaram o tamanho, o contraste e o tom.

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