
Em 30 segundos
- As “aranhas” de Marte não são bichos. São sulcos cavados no chão, perto do polo sul, e algumas passam de 1 km de ponta a ponta.
- A explicação mais aceita é de 2006: na primavera, o Sol aquece o chão por baixo de uma placa de gelo seco. O gás racha o gelo e sai em jatos com poeira escura.
- Em setembro de 2024, a NASA recriou essas marcas em laboratório pela primeira vez. Mas ninguém nunca viu um desses jatos em ação em Marte.
Antes de piscar
Marcas que parecem bichos
Elas foram descobertas em 2003, em fotos feitas de órbita pela sonda americana Mars Global Surveyor. Desde então, as câmeras em órbita de Marte seguem fotografando essas marcas.
Os cientistas chamam o lugar de “terreno araneiforme”. A palavra quer dizer só isso: “com forma de aranha”. Cada marca tem um centro de onde saem “pernas”. Segundo a NASA, uma só pode ter centenas delas.
Não são desenhos na superfície. São canais cavados no chão. Medidos por fotos em 3D e pelas sombras, eles têm de 1 a 2 metros de profundidade.

O tamanho varia muito. Há aranhas de algumas dezenas de metros e outras com mais de 1 quilômetro. Elas ficam na região do polo sul.
Em números
- 1 km+ de ponta a ponta nas maiores
- 1 a 2 m de profundidade nos canais
- ~1 m de gelo seco por cima no inverno
- 160 km/h ou mais nos jatos, pela estimativa de 2006
O instante
Quando o Sol atravessa o gelo
No inverno, o polo sul de Marte fica muito frio. O gás carbônico do ar congela e se deposita no chão. Forma uma camada de gelo seco de cerca de 1 metro.
“Se você estivesse lá, estaria de pé numa placa de gelo de gás carbônico”, disse em 2006 o geólogo Phil Christensen, da Universidade Estadual do Arizona.
Esse gelo é translúcido: deixa passar a luz. Na primavera, a luz do Sol passa por ele e esquenta o chão escuro de baixo. O gelo que encosta no chão vira gás direto, sem passar pelo líquido.
O gás fica preso embaixo da placa. A pressão sobe até o gelo rachar. Então o gás escapa num jato e leva junto areia e poeira escura. A estimativa de 2006 é de 160 km/h ou mais.

A poeira cai de volta sobre o gelo e forma manchas escuras. Se há vento, ela cai torta e desenha um leque. Ano após ano, o gás que corre por baixo vai cavando os canais. É assim que nasce a aranha.

Procure os leques. As manchas escuras em forma de leque não são buracos. São poeira que o gás jogou para fora e que caiu por cima do gelo.
Essa explicação foi publicada na revista Nature em 17 de agosto de 2006. O primeiro autor foi Hugh Kieffer, aposentado do Serviço Geológico dos EUA, e por isso ela é chamada de “modelo de Kieffer”. A equipe usou imagens da câmera THEMIS, da sonda Mars Odyssey. Elas mostraram que as manchas escuras ficavam quase tão frias quanto o gelo. Ou seja, o gelo ainda estava lá, só coberto de poeira.

Num piscar de olhos
A NASA fez aranhas em laboratório
A ideia de Kieffer fazia sentido, mas faltava ver acontecer. Em 11 de setembro de 2024, o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA, anunciou que tinha conseguido. A pesquisa saiu no mesmo dia na revista The Planetary Science Journal.
A líder do experimento foi a cientista Lauren Mc Keown. Segundo a NASA, ela tentava fazer um jato assim havia cinco anos.

O teste foi feito numa câmara resfriada com nitrogênio líquido, chamada DUSTIE. Antes, ela tinha servido para testar uma ferramenta da sonda Phoenix, que pousou no norte de Marte em 2008.
Lá dentro, a equipe pôs uma terra que imita o solo de Marte. Baixou a pressão do ar e o frio chegou a 185 graus negativos. Depois, soltou gás carbônico, que congelou por cima. Por fim, ligou um aquecedor embaixo da terra, fazendo o papel do Sol.
O gelo rachou e o gás saiu num jato, cuspindo terra por até 10 minutos. Em volta das rachaduras, ficaram marcas parecidas com as aranhas.

Veio também uma surpresa. Parte do gelo se formou entre os grãos de terra, e não só por cima. Quando esse gelo virou gás, rachou a própria terra. O modelo de Kieffer não previa isso. Para os autores, pode ser outra forma de nascerem as aranhas.
O próximo passo, segundo a NASA, é repetir o teste com uma luz que imite o Sol, no lugar do aquecedor.
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Depois
Aranhas na “Cidade Inca”
Em 24 de abril de 2024, a Agência Espacial Europeia (ESA) divulgou novas fotos da região. Elas mostram as aranhas perto de um lugar apelidado de “Cidade Inca”. O nome oficial é Angustus Labyrinthus.
Ali, cristas formam linhas retas que lembram as ruínas dos incas. Elas foram vistas pela primeira vez em 1972, em fotos da sonda americana Mariner 9. As cristas parecem desenhar parte de um círculo de 86 km. Segundo a ESA, pode ser uma grande cratera.

Segundo a ESA, as manchas escuras da região medem de 45 metros a 1 quilômetro. E o gás que escapa consegue romper placas de gelo de até 1 metro.
A busca também ganhou ajuda de fora. Segundo a Planetary Society, o projeto Planet Four começou em janeiro de 2013: voluntários marcam pela internet os leques de poeira nas fotos da câmera HiRISE. Em julho de 2018, a HiRISE fotografou de perto uma área que voluntários do projeto tinham apontado. Segundo a equipe da câmera, a foto mostra milhares de aranhas.
- 1972 A Mariner 9 fotografa a “Cidade Inca”.
- 2003 As aranhas são descritas pela primeira vez.
- 2006 Sai na Nature o modelo de Kieffer, com os jatos de gás.
- 2013 Começa o projeto de voluntários Planet Four.
- Abr. 2024 A ESA divulga as fotos da “Cidade Inca”.
- Set. 2024 A NASA recria as aranhas em laboratório.
De olhos abertos
O que ainda não se sabe
Alguém já viu um jato saindo?
Não. Nenhuma foto de órbita flagrou um jato em ação, e nenhuma sonda no chão consegue medir isso. Os robôs Curiosity e Perseverance trabalham longe do polo sul, e nenhuma sonda pousou perto dele. Tudo o que se sabe vem das marcas deixadas.
Por que só em alguns lugares?
Ninguém sabe. O gelo seco cobre todo o polo sul no inverno, mas as aranhas só aparecem em algumas áreas. A NASA lista essa como uma das perguntas em aberto.
Elas ainda estão crescendo?
Parece que não. Um estudo de 2021 conta que a HiRISE vigiou as aranhas por sete anos e não viu mudança nelas. As grandes nunca foram vistas nascendo. A NASA levanta a hipótese de que sejam restos de um clima antigo, diferente do atual.
O gelo racha por cima ou por dentro da terra?
Talvez os dois. O teste de 2024 confirmou partes do modelo de Kieffer, mas mostrou que o gelo entre os grãos também racha o chão. Qual dos dois pesa mais em Marte, ainda não se sabe.
Verdade ou lenda?
“As aranhas de Marte são sinal de vida.”
Falso Não são aranhas nem seres vivos. São marcas feitas pelo gás que escapa de baixo do gelo, segundo a ESA e a NASA. E a NASA conseguiu repetir o processo em laboratório, sem nada vivo.
“Isso também acontece na Terra.”
Falso O artigo de 2006 na Nature diz que o processo é diferente de tudo o que se vê na Terra. O estudo de 2024 repete: ele não acontece naturalmente aqui.
Fontes desta história
- NASA/JPL. “NASA Scientists Re-create Mars ‘Spiders’ in a Lab for First Time”, 11 de setembro de 2024.
- Mc Keown, L. E. e outros. “A Lab-scale Investigation of the Mars Kieffer Model”. The Planetary Science Journal, vol. 5, artigo 195, 11 de setembro de 2024.
- Kieffer, H. H., Christensen, P. R. e Titus, T. N. “CO2 jets formed by sublimation beneath translucent slab ice in Mars’ seasonal south polar ice cap”. Nature, vol. 442, p. 793–796, 17 de agosto de 2006. Ficha no Serviço Geológico dos EUA (USGS).
- NASA. “NASA Findings Suggest Jets Bursting From Martian Ice Cap”, 16 de agosto de 2006. Universidade Estadual do Arizona (THEMIS). “Gas jets spawn dark ‘spiders’ and spots on Mars icecap”.
- Mc Keown, L. e outros. “The formation of araneiforms by carbon dioxide venting and vigorous sublimation dynamics under martian atmospheric pressure”. Scientific Reports, vol. 11, artigo 6445, 19 de março de 2021.
- ESA. “Signs of spiders from Mars”, 24 de abril de 2024. DLR (agência espacial alemã). “Angustus Labyrinthus – the ‘Inca city’ at Mars’ icy south pole”, 24 de abril de 2024.
- HiRISE, Universidade do Arizona. Fichas das observações ESP_055283_0985, ESP_014413_0930, ESP_011842_0980, ESP_046845_0975 e ESP_056231_1065.
- NASA Photojournal. PIA22587, PIA12249, PIA11858, PIA11706, PIA26405 e PIA26406.
- The Planetary Society. “Introducing PlanetFour”, Ganna Portyankina, 23 de janeiro de 2013.
Fontes consultadas em 10 de outubro de 2026.
Créditos das imagens
1, 2, 4 e 5 Câmera HiRISE, sonda Mars Reconnaissance Orbiter: NASA/JPL-Caltech/Univ. do Arizona (PIA22587, PIA12249, PIA11858 e PIA11706). 3 Câmera CaSSIS, sonda ExoMars TGO: ESA/TGO/CaSSIS, CC BY-SA 3.0 IGO. 6 e 7 NASA/JPL-Caltech (PIA26405 e PIA26406). 8 Câmera HRSC, sonda Mars Express: ESA/DLR/FU Berlin, CC BY-SA 3.0 IGO.
As imagens da HiRISE são de domínio público. As imagens 6 e 7 seguem a política de uso de imagens do JPL, que permite o uso para qualquer fim. As imagens 3 e 8 são da ESA, sob a licença Creative Commons CC BY-SA 3.0 IGO. Todas são fotos reais feitas por sondas ou no laboratório; a 8 é uma vista em perspectiva montada com dados reais. Nenhuma foi feita por inteligência artificial nem recortada. Só mudaram o tamanho e o tom; as imagens 3 e 8 continuam sob a mesma licença.



