
Em 30 segundos
- O Yorktown era um porta-aviões dos Estados Unidos. Em maio de 1942, uma bomba japonesa o deixou com conserto calculado em três meses.
- Foi remendado em cerca de três dias e chegou a tempo à batalha de Midway. Seus aviões atingiram um dos quatro porta-aviões que o Japão perdeu ali e participaram do ataque a outro.
- Atingido por bombas e torpedos, afundou em 7 de junho de 1942. Está a 5 quilômetros de profundidade. Em 2025, um robô achou lá dentro um mural, aviões e um carro.
Antes de piscar
Precisava de três meses. Teve três dias
O Yorktown entrou em serviço na Marinha dos Estados Unidos em 30 de setembro de 1937. Era um porta-aviões: um navio com uma pista em cima, de onde aviões decolam e onde pousam. Tinha quase 250 metros de comprimento e podia levar mais de 80 aviões.

Olhe em cima. A parte plana que cobre o navio inteiro é a pista dos aviões.
Em 7 de dezembro de 1941, o Japão atacou a base americana de Pearl Harbor, no Havaí, e os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial.
Naquele dia, o Yorktown estava do outro lado do país, no Atlântico. Foi mandado para o Pacífico. Em maio de 1942, ele lutou no Mar de Coral, onde o Japão tentava tomar Port Moresby, na Nova Guiné.
Em 8 de maio, uma bomba acertou o Yorktown. Furou a pista, atravessou vários andares e explodiu lá embaixo. O relatório do comandante registra 40 mortos e 26 feridos graves.

A Marinha calculou pelo menos três meses de estaleiro. Não havia esse tempo.
Em Pearl Harbor, uma equipe chefiada pelo comandante Joseph Rochefort decifrava parte das mensagens secretas da Marinha japonesa. Elas falavam de um ataque a um lugar chamado “AF”. Os americanos desconfiavam que AF era Midway, um atol com duas ilhas pequenas, a cerca de 2.100 quilômetros de Honolulu.
Para ter certeza, armaram um truque. Midway avisou pelo rádio, sem código, que estava com pouca água. Pouco depois, uma mensagem japonesa dizia que faltava água em AF.
O almirante Chester Nimitz, comandante da frota americana no Pacífico, já sabia onde seria o ataque. Os decifradores deram também o dia: 4 de junho. Ele tinha dois porta-aviões prontos, o Enterprise e o Hornet. O Japão viria com quatro. Nimitz precisava do terceiro.
O Yorktown chegou a Pearl Harbor em 27 de maio. No dia seguinte, entrou no dique seco, um tanque que se esvazia para deixar o casco à mostra. Nimitz desceu de botas de borracha para ver o estrago. Segundo a Marinha, ele disse: “Precisamos deste navio de volta em três dias.”

Chester Nimitz
O almirante que deu três dias
Comandava a frota americana no Pacífico.
Decidiu enfrentar a frota japonesa em Midway com três porta-aviões contra quatro.
Foto: Marinha dos EUA, cerca de 1942
Cerca de 1.400 operários trabalharam dia e noite. Não consertaram tudo. Soldaram uma grande chapa de aço sobre o trecho danificado do casco e remendaram a pista.
Na manhã de 30 de maio, o Yorktown voltou ao mar. Ainda havia operários a bordo, terminando o trabalho.
Três meses viraram três dias.
Em números
- 3 dias de conserto, na conta da Marinha
- 1.400 operários, mais ou menos
- 4 porta-aviões japoneses perdidos
- 5 km de profundidade, hoje
O instante
A manhã de 4 de junho
Os três porta-aviões americanos se juntaram a nordeste de Midway e esperaram. Na manhã de 4 de junho de 1942, bem cedo, um avião de patrulha avistou os porta-aviões japoneses. Eram quatro: Akagi, Kaga, Soryu e Hiryu.

Siga os riscos. As linhas brancas são a espuma que os navios deixam ao virar.
Os primeiros aviões dos porta-aviões americanos a chegar foram os torpedeiros, lentos, que voam baixo para soltar torpedos na água. Dos 41 que saíram dos três navios, só 6 voltaram.
Depois vieram os bombardeiros de mergulho, que descem quase na vertical sobre o alvo. Dois grupos do Enterprise e um do Yorktown tinham decolado em horas diferentes. Chegaram quase juntos. Para o historiador da Marinha americana, foi puro acaso.
Por volta das 10h25 de 4 de junho de 1942, os bombardeiros do Yorktown acertaram o porta-aviões Soryu. Aviões do Enterprise tinham acabado de atingir o Kaga e o Akagi. Em poucos minutos, três porta-aviões japoneses estavam em chamas.
Hora do relatório do almirante Nimitz sobre a batalha. Em Brasília, eram 19h25. O Brasil ainda não estava na guerra: só a declarou à Alemanha e à Itália em 22 de agosto.
Sobrou um porta-aviões japonês inteiro, o Hiryu. Ele lançou seus aviões contra os americanos. Acharam o Yorktown.
Num piscar de olhos
Dois ataques numa tarde
Perto do meio-dia, o radar do Yorktown mostrou aviões chegando. Eram 18 bombardeiros de mergulho e 6 caças. Os caças americanos derrubaram a maioria. Sete ou oito passaram. Três bombas acertaram o navio.

Olhe à direita do navio. O jato branco é uma bomba que acabou de cair no mar.
Uma bomba abriu na pista um buraco de 3 metros. Outra explodiu na chaminé e apagou cinco das nove caldeiras. O navio parou.
A tripulação foi rápida. O buraco na pista foi coberto em menos de meia hora. Menos de duas horas depois das bombas, três das caldeiras apagadas tinham sido religadas, e o navio andava a quase 20 nós, uns 35 quilômetros por hora.
Foi tão rápido que enganou o inimigo. A segunda leva japonesa, com dez aviões torpedeiros, atacou um porta-aviões que parecia intacto. Era o Yorktown de novo, escreve o historiador da Marinha.

Dois torpedos acertaram o lado esquerdo. O navio ficou sem luz e sem força e tombou 26 graus. O comandante, Elliott Buckmaster, achou que ele ia virar em minutos. Mandou todos saírem.

Olhe o horizonte. O navio lá no fundo é o Yorktown, abandonado.
Naquela mesma tarde, um avião de busca do Yorktown achou o Hiryu. Por volta das 17 horas, bombardeiros que decolaram do Enterprise, entre eles aviões do Yorktown, acertaram o último porta-aviões japonês.

Os quatro porta-aviões japoneses foram perdidos. O almirante Isoroku Yamamoto, autor do plano japonês, desistiu de invadir Midway.
O Yorktown não afundou. Passou a noite boiando, torto e vazio. Em 5 de junho, um navio pequeno começou a rebocá-lo, bem devagar. Em 6 de junho, Buckmaster voltou a bordo com cerca de 170 homens. O destróier Hammann encostou ao lado para dar água e mangueiras. O navio começou a se endireitar.
No começo da tarde de 6 de junho, o submarino japonês I-168 passou entre os destróieres da escolta e disparou quatro torpedos. Dois acertaram o Yorktown. Um partiu o Hammann, que afundou em cerca de quatro minutos. Morreram mais de 80 homens do destróier.
Ao amanhecer de 7 de junho, o Yorktown tombou de vez. Afundou às 5h01, pela hora do relatório de Nimitz, com as bandeiras de batalha no mastro. No relógio do navio, eram 7h01. Em Brasília, 14h01.

O que se vê é o fundo. O navio virou de lado, e a parte de baixo do casco ficou para fora da água.
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Depois
Cinco quilômetros abaixo
Midway custou ao Japão quatro porta-aviões, um cruzador e cerca de 3 mil homens. Os Estados Unidos perderam o Yorktown, o Hammann e, conforme a fonte, 307 ou cerca de 362 homens. Para a Marinha americana, a batalha mudou o rumo da guerra no Pacífico.
Em 19 de maio de 1998, uma expedição chefiada pelo explorador Robert Ballard achou o Yorktown no fundo do mar, a cerca de 5 quilômetros de profundidade. Estava em pé e inteiro.
Em 19 e 20 de abril de 2025, um robô da NOAA, a agência americana dos oceanos, filmou o navio por dentro. Achou três surpresas.
A primeira é um mural pintado à mão no poço de um dos elevadores de aviões. É um mapa do mundo com as viagens do navio. Ninguém sabe quem pintou.
A segunda são aviões: pelo menos três bombardeiros Dauntless. Um foi identificado, e não era do Yorktown. Era do Enterprise.
A terceira é um carro. Está na parte de trás do hangar. A NOAA o identificou, com ressalva, como um Ford Super Deluxe “Woody” de 1941, preto.
Um carro, dentro de um porta-aviões, no fundo do Pacífico.
O naufrágio é túmulo de guerra. Pela lei americana, nada pode ser mexido ali sem autorização da Marinha.
De olhos abertos
O que ainda não se sabe
De quem era o carro?
Ninguém sabe. A própria NOAA pergunta por que ele continuou a bordo depois do conserto às pressas, e por que não foi jogado ao mar, como canhões e aviões, quando a tripulação tentava aliviar o peso. Nada foi provado. Até o modelo é provisório.
Quantos morreram no Yorktown?
As fontes não batem. O site de notícias do Instituto Naval dos EUA fala em cerca de 141. Um texto de história da Marinha conta 35 mortos nos dois ataques aéreos.
Verdade ou lenda?
“O Yorktown foi afundado por aviões.”
Meia verdade Os aviões o deixaram parado e vazio em 4 de junho. O golpe final foi de um submarino, dois dias depois.
“Foi consertado em 48 horas.”
Meia verdade No dique seco, ficou menos de dois dias. Da chegada à partida, cerca de três. A Marinha fala em 72 horas.
“Os japoneses estavam a cinco minutos de lançar seu ataque.”
Falso É o que diz a pesquisa atual. A versão vem do livro de um aviador japonês, publicado nos Estados Unidos em 1955. Para o historiador Jonathan Parshall, faltavam uns 45 minutos. A Marinha americana fala em mais de 45.
Fontes desta história
- Marinha dos EUA, Naval History and Heritage Command (NHHC). Dicionário de navios (DANFS): Yorktown, Hammann, Enterprise e Hornet; textos de história de Samuel J. Cox (H-Grams) sobre o Mar de Coral e Midway; páginas sobre a batalha e a expedição de 1998.
- Relatórios de 1942. Do comandante do Yorktown, Elliott Buckmaster (Mar de Coral e Midway); do destróier Hammann; do almirante Nimitz sobre Midway; narrativa de combate do Serviço de Inteligência Naval (1943).
- Marinha dos EUA, estaleiro de Pearl Harbor e NAVSEA. Textos sobre o conserto de maio de 1942. Defense Media Network. U.S. Naval Institute: relato do comandante do I-168, Yahachi Tanabe (1963), e notícias de 2025.
- NOAA Ocean Exploration. Páginas da expedição de abril de 2025 e relatório anual. Ocean Exploration Trust, expedição de 2023.
- Naval War College Review, artigo de Jonathan Parshall sobre os “cinco minutos”. National WWII Museum. Smithsonian Magazine. Encyclopaedia Britannica. NSA, biografia de Joseph Rochefort. Associated Press e MIT News (1998), CBS News, Stars and Stripes, museu Patriots Point.
- O relógio: o relatório de Nimitz usa o fuso “Zone plus 12”; os do Yorktown, duas horas a mais. Brasil sem horário de verão em 1942 (base da IANA).
Fontes consultadas em 9 de outubro de 2026. As identificações do carro e dos aviões são provisórias.
Créditos das imagens
1 Marinha dos EUA, 29 de maio de 1942. 2 Marinha dos EUA, 30 de outubro de 1937. 3 Marinha dos EUA, maio de 1942. 4 Marinha dos EUA, cerca de 1942. 5 Força Aérea do Exército dos EUA, 4 de junho de 1942. 6, 7 e 8 Marinha dos EUA, 4 de junho de 1942. 9 Marinha Imperial Japonesa, 5 de junho de 1942; acervo da Marinha dos EUA. 10 Marinha dos EUA, 7 de junho de 1942.
As imagens vieram do Wikimedia Commons, onde estão registradas como de domínio público: são fotos oficiais do governo dos Estados Unidos ou do acervo da Marinha americana. Nenhuma foi feita por inteligência artificial nem recortada. Só mudaram o tamanho, o contraste e o tom.



