
Em 30 segundos
- Um estudo publicado em setembro de 2026 propõe que sinais num selo antigo identificam Meretneith como detentora de autoridade real.
- O objeto e a chapa fotográfica original não foram localizados: a análise trabalha com uma fotografia de arquivo.
- Seu poder é bem documentado, mas o título exato e a sequência de sua carreira continuam em debate.
Uma mulher deixou seu nome entre as marcas do poder no começo da história do Egito unificado. Cerca de cinco mil anos depois, pesquisadores ainda discutem que posição ela ocupou. Meretneith foi mãe de rei, governou em nome de um herdeiro ou teve a mesma autoridade de um soberano masculino? Uma fotografia antiga voltou a aproximar essas perguntas.
O Reel do Pisca de 29 de setembro de 2026 apresentou essa disputa. A novidade era uma leitura de inscrições, publicada naquele mês, e não a descoberta de uma nova tumba. Há uma diferença decisiva entre reconhecer que Meretneith exerceu poder e reconstruir com segurança como esse poder mudou ao longo da vida.
O documento
O selo que só pode ser estudado pela fotografia
Em 1946, Walter B. Emery encontrou treze tampões de barro na tumba S3503, em Saqqara. As impressões incluíam quatro emblemas chamados serekhs, molduras usadas para apresentar nomes de governantes. Emery atribuiu os sinais das extremidades a Djer; a identificação dos dois centrais tornou-se uma disputa. A imagem entrou em sua publicação de 1954.
Sue Kelly e Crystal Miller reexaminaram um escaneamento do registro de arquivo. Contraste, separação de fundo e vetorização ajudaram a tornar os traços comparáveis. Elas interpretam os sinais centrais como o nome de Meretneith e propõem uma fase de governo compartilhado com Djer. É uma conclusão das autoras, sustentada por sua leitura dos sinais, não um consenso demonstrado por exame novo da peça.
O próprio estudo informa que não se sabe onde estão o tampão analisado e a chapa de vidro original. Sem o objeto, não é possível mudar a iluminação, observar a superfície de outros ângulos ou repetir métodos que dependem do relevo físico. A técnica digital melhora o exame do registro disponível; não restitui informação que a fotografia nunca captou.
A historiadora Eva-Maria Engel, da Universidade Humboldt, discordou da identificação em entrevista à Live Science: para ela, o selo menciona apenas Djer. Engel reconhece outros indícios do poder de Meretneith. A divergência está na leitura desse documento específico.
A trajetória
Um cargo único pode não contar toda a história
A interpretação de Kelly e Miller organiza a atuação de Meretneith em fases: governo compartilhado e, mais tarde, autoridade como mãe do rei Den. No documento que sustenta essa leitura, diferentes nomes e títulos pertencem a contextos distintos. Por isso, condensar a discussão em “foi rainha” ou “foi rei” pode esconder justamente o problema que a pesquisa tenta resolver.
“Rei”, nessa discussão, refere-se ao posto e aos símbolos de soberania, não a uma dúvida sobre o sexo da personagem. “Regente” indica o exercício do governo por alguém em nome de outro soberano. Mesmo quando duas interpretações reconhecem uma mulher comandando o Estado, elas podem discordar sobre a base de sua autoridade. Essa distinção torna o debate histórico mais preciso do que uma disputa por um rótulo moderno.

A escavação
O túmulo acrescenta evidências que a foto não oferece
Abydos é outro lugar dessa história. O Instituto Arqueológico Alemão registra que o túmulo de Meretneith foi encontrado por Flinders Petrie em 1899 e inicialmente atribuído a um rei até então desconhecido. Quando se reconheceu a identificação feminina, começou uma longa discussão sobre seu papel. O complexo monumental a colocava no cemitério real, junto aos governantes da primeira dinastia.
O comunicado da Universidade de Viena de 2023 descreveu centenas de grandes jarras de vinho, algumas ainda seladas, e inscrições associadas a funções centrais de governo, como o tesouro. Eram indícios de recursos e posição institucional. Mas um funeral rico não funciona sozinho como certidão de um título político: precisa ser relacionado às inscrições, à organização do conjunto e à cronologia.
Naquele comunicado, a equipe contou 41 sepulturas de cortesãos e servidores ao redor da câmara principal. Também identificou várias fases construtivas, distribuídas no tempo. Isso questionava a velha hipótese de que todos teriam sido sacrificados de uma vez no funeral. A imagem de uma corte inteira morta simultaneamente não deve ser repetida como fato estabelecido.
A atualização
O trabalho continuou depois das primeiras manchetes
O relatório anual de 2025 do Instituto Arqueológico Alemão registra o encerramento do projeto naquele ano e um túmulo principal com 42 sepulturas auxiliares. O número de 41 citado no Reel correspondia ao comunicado de 2023, não a essa atualização.
A equipe também reuniu objetos de antigas escavações preservados em treze museus e analisou quase quatro mil amostras, com métodos que investigam idade, composição e processos de alteração dos materiais. Esses resultados foram discutidos num encontro em Viena, em julho de 2025, para as publicações finais. A história não depende apenas de ampliar uma fotografia: também exige relacionar dados obtidos em campo e em laboratório.
Perguntas em aberto
O que ainda não se sabe
Localizar os selos e a chapa permitiria testes que hoje faltam. A carreira continua incompleta: quanto durou cada fase e como interpretar os títulos em conjunto? A estimativa de trinta anos mencionada pela autora reúne papéis distintos; não equivale a um reinado independente comprovado de três décadas.
O caso é forte porque uma mulher aparece repetidamente no ambiente do poder, não porque uma foto encerrou o assunto. Meretneith já não pode ser reduzida a uma presença decorativa na família real. A discussão que resta é como descrever sua autoridade com a precisão que os documentos permitem.
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Fontes desta história
- Sue Kelly e Crystal Miller — Prague Egyptological Studies 36 (2026), páginas 28–49. Estudo original sobre os serekhs e as hipóteses de atuação política; edição de setembro de 2026. PDF integral consultado.
- Sue Kelly — explicação da autora para The Conversation, 15/09/2026. Texto primário da pesquisadora, republicado em Phys.org, sobre a leitura dos sinais e as possíveis fases da carreira.
- Live Science — entrevistas de Owen Jarus, 28/09/2026. Depoimentos diretos de Susan Kelly e Eva-Maria Engel; usado para registrar a discordância de Engel, não como substituto do estudo original.
- Universidade de Viena — comunicado de 09/10/2023. Equipe de escavação: jarras de vinho, inscrições administrativas, 41 sepulturas auxiliares então registradas e fases de construção.
- Instituto Arqueológico Alemão — projeto Meret-Neith. História da identificação do túmulo e objetivos da nova documentação arqueológica.
- Instituto Arqueológico Alemão — relatório anual 2025, seção Cairo. Atualização da equipe: encerramento do projeto em 2025, 42 sepulturas auxiliares e quase 4 mil amostras analisadas. Seção Das Grab der Meret-Neith.
- Prague Egyptological Studies — edição 2026 (36). Ficha editorial que confirma publicação da edição em setembro de 2026; o manuscrito anterior não é a data da versão publicada.
Fontes consultadas em 12 de outubro de 2026.
Créditos das imagens
Figura 1: La Rosa / لا روسا, CC BY-SA 4.0. Figura 2: Kyera Giannini, Ancient World Image Bank / ISAW-NYU, CC BY 2.0. Fotografias reais e históricas, reduzidas proporcionalmente; fichas e licenças individuais nas legendas.
Este artigo foi escrito originalmente para o site a partir do episódio publicado; não reproduz capítulo de livro. Não foram reutilizadas as figuras do estudo, cuja licença contém restrições comerciais e de adaptação.




