
Em 30 segundos
- Na madrugada de 26 de abril de 1986, durante um teste de segurança, o reator 4 da usina nuclear de Chernobyl explodiu.
- Dois homens morreram naquela noite e 28 nos três meses seguintes. Só em 1986, cerca de 116 mil pessoas tiveram de deixar suas casas.
- Quarenta anos depois, o reator continua coberto, a região em volta continua fechada e ninguém sabe ao certo quantas pessoas o acidente matou.
Antes de piscar
Uma usina, uma cidade nova e um teste
A usina de Chernobyl ficava no norte da Ucrânia, que em 1986 fazia parte da União Soviética. Tinha quatro reatores. O mais novo, o número 4, chegou à potência total em março de 1984.
A 3 quilômetros dali ficava Pripyat, a cidade construída para os trabalhadores da usina e suas famílias. Tinha entre 45 mil e 50 mil moradores.

Leia o número. A placa traz o ano de 1970.
Os reatores eram de um modelo soviético chamado RBMK. Dentro dele, o urânio fica em tubos cercados de blocos de grafite e é resfriado com água. Para frear a reação, os operadores descem barras de controle para dentro do reator.

O RBMK tinha defeitos graves. Três deles pesaram naquela noite. Primeiro: quando a água virava vapor, a potência subia em vez de cair. Segundo: as barras de controle tinham ponta de grafite. Ao entrar, por alguns segundos, elas aumentavam a reação na parte de baixo do reator, em vez de diminuir. Esse efeito tinha sido notado em 1983, em outra usina, e nada mudou. Terceiro: o reator não tinha a casca de proteção usada nas usinas do Ocidente.
Em 25 de abril de 1986, o reator 4 estava sendo desligado para manutenção. A equipe ia aproveitar para fazer um teste, marcado para a tarde: queria saber por quanto tempo as turbinas, girando só no embalo, conseguiriam manter ligadas as bombas de água numa falta de energia.
O teste atrasou. O controlador da rede elétrica de Kiev pediu que a usina continuasse fornecendo energia. À meia-noite, o turno trocou. O teste ficou para a equipe da noite, chefiada por Aleksandr Akimov, de 32 anos. No comando do reator estava Leonid Toptunov, de 25.
Aos 28 minutos do dia 26, a potência despencou para quase nada. Para fazê-la subir, os operadores tiraram barras de controle do reator. Contas feitas depois do acidente mostraram que sobrava dentro do reator o equivalente a 8 barras, ou menos. A regra exigia pelo menos 15. Segundo o relatório internacional de 1992, é provável que os operadores não soubessem disso.
O instante
O botão que devia desligar tudo
À 1h23min04s, o teste começou. Trinta e seis segundos depois, à 1h23min40s, foi apertado o botão AZ-5, o do desligamento de emergência. As barras começaram a descer.
Aconteceu o contrário do esperado. Três segundos depois, a potência começou a disparar. Houve duas explosões, com dois ou três segundos entre uma e outra. Segundo a Associação Nuclear Mundial, a primeira foi de vapor. A segunda jogou para fora pedaços de combustível e de grafite em brasa.
Em 26 de abril de 1986, à 1h23 da madrugada, o reator 4 da usina de Chernobyl explodiu durante um teste de segurança.
No Brasil eram 18h23 de sexta-feira, 25 de abril. O primeiro relatório enviado a Moscou falava em 1h21. As fontes mais usadas põem a explosão entre 1h23 e 1h24.

Ache o prédio arrebentado. É o do reator 4.
Trinta e seis segundos. Um botão. Duas explosões.
Valery Khodemchuk, de 35 anos, operador das bombas, morreu na explosão. Vladimir Shashenok, também de 35, foi achado inconsciente e morreu por volta das 6 horas da manhã.
Os bombeiros chegaram em minutos. O tenente Volodymyr Pravyk, de 23 anos, chefiava uma das primeiras equipes e combateu o fogo no telhado. “O telhado estava tão quente que as botas grudavam nele”, contou o bombeiro Leonid Shavrej. Seis bombeiros, entre eles Pravyk, morreram de doença da radiação em maio.
Em números
- 36 s do começo do teste ao botão de emergência
- 2 mortos na noite da explosão
- 28 mortos nos três meses seguintes
- 134 casos de doença aguda da radiação
Num piscar de olhos
Trinta e seis horas até os ônibus
O primeiro relatório enviado a Moscou, no próprio dia 26, dizia que não era preciso tirar ninguém da cidade. No dia seguinte, o governo mudou de ideia. Na tarde de 27 de abril, cerca de 36 horas depois da explosão, Pripyat começou a ser esvaziada em ônibus.

Leia o rótulo. Em inglês: “usina nuclear de Chernobyl”. A mancha preta ao lado é o lago que resfriava os reatores.
No mesmo dia 27, helicópteros começaram a jogar material sobre o reator aberto. Até o décimo dia depois da explosão, foram cerca de 5 mil toneladas de boro, dolomita, areia, argila e chumbo, segundo a Associação Nuclear Mundial.

O mundo soube pela Suécia. Na manhã de segunda-feira, 28 de abril, os aparelhos da usina nuclear de Forsmark acusaram radioatividade nos funcionários do turno da manhã. A sujeira radioativa não era de lá. O vento vinha do lado da União Soviética.
Naquele mesmo dia, os chefes soviéticos se reuniram. “Devemos emitir uma declaração rápido, não podemos demorar”, disse o líder Mikhail Gorbachev, segundo a ata da reunião. À noite, o governo soviético reconheceu o acidente, num comunicado curto. Gorbachev só falou na televisão em 14 de maio, 18 dias depois da explosão.
Em 2 de maio, decidiu-se esvaziar tudo num raio de 30 quilômetros. Ao longo de 1986, cerca de 116 mil pessoas saíram.
Em 6 de maio, três homens entraram no subsolo do reator para abrir válvulas e escoar a água que estava debaixo dele: Oleksiy Ananenko, Valeriy Bespalov e Borys Baranov. Ficaram conhecidos como “os três mergulhadores”, e por anos se repetiu que morreram dias depois. Não foi assim. Baranov morreu em 2005. Os outros dois estavam vivos em 2019, quando os três receberam o título de Herói da Ucrânia.
De quem foi a culpa? O primeiro relatório internacional culpou os operadores. Em 1987, um tribunal condenou a dez anos de prisão o diretor da usina, Viktor Bryukhanov, o engenheiro-chefe, Nikolai Fomin, e o vice dele, Anatoly Dyatlov.
Em 1992, um novo relatório internacional mudou o peso: o maior problema estava no projeto do reator e na falta de cuidado com a segurança em todo o sistema. Os erros dos operadores contaram, mas não explicam tudo.
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Depois
O que ficou
Para fechar o reator, os soviéticos ergueram em volta dele uma caixa de concreto e aço, o sarcófago. Ficou pronto em novembro de 1986. Segundo a usina, a obra levou 206 dias.
Quem trabalhou na limpeza ficou conhecido como liquidador. Foram cerca de 200 mil pessoas em 1986 e 1987. Com os anos, mais de 600 mil receberam esse título.

A usina não fechou. Os outros três reatores voltaram a funcionar. O último só foi desligado em 15 de dezembro de 2000.
Quantas pessoas adoeceram? Entre trabalhadores e bombeiros, 134 tiveram a doença aguda da radiação, e 28 deles morreram em três meses. Nos anos seguintes, apareceram mais de 6 mil casos de câncer de tireoide em pessoas que eram crianças ou adolescentes em 1986, com 15 mortes até 2005, segundo o comitê científico da ONU, citado pela Organização Mundial da Saúde.
Somando tudo, cerca de 350 mil pessoas deixaram a região.

O sarcófago foi feito às pressas, para durar 20 ou 30 anos. Para cobri-lo, um fundo com dinheiro de 45 doadores, quase todos países, ajudou a pagar um arco de aço de 108 metros de altura, 257 de largura e 36 mil toneladas. Ele foi montado ao lado do reator e empurrado sobre trilhos por 327 metros, em novembro de 2016. Custou 1,5 bilhão de euros e foi feito para durar cem anos.

Olhe o horizonte. A cúpula prateada é o arco que cobre o reator.
Em 24 de fevereiro de 2022, primeiro dia da invasão da Ucrânia, tropas russas tomaram a usina. Saíram em 31 de março.
Em 14 de fevereiro de 2025, de madrugada, um drone bateu no arco, a 87 metros de altura, e abriu um buraco de 15 metros quadrados, segundo a usina. O fogo no isolamento levou quase três semanas para ser apagado. A radiação não subiu. A Ucrânia culpa a Rússia. A Rússia nega.

Ache o ponto vermelho. A própria usina marcou na foto o lugar onde o drone bateu.
Segundo a Associação Nuclear Mundial, uma avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica concluiu, em dezembro de 2025, que o arco deixou de cumprir sua função principal, que é manter tudo fechado lá dentro. Em abril de 2026, o banco europeu que cuida do projeto disse que o conserto pode custar pelo menos 500 milhões de euros. A meta é terminar até 2030.
E o Brasil? Em setembro de 1987, o país teve o seu próprio acidente com material radioativo. Não foi numa usina. Em Goiânia, uma cápsula de césio-137 foi tirada de um aparelho de radioterapia abandonado. Quatro pessoas morreram e 249 foram contaminadas, segundo o relatório da Agência Internacional de Energia Atômica.
De olhos abertos
O que ainda não se sabe
Quantas pessoas Chernobyl matou?
Não há resposta única. Até 2005, menos de 50 mortes tinham sido ligadas diretamente à radiação. Naquele ano, um grupo de agências da ONU calculou que o total poderia chegar a 4 mil entre as pessoas mais atingidas. Outras estimativas falam em dezenas de milhares. Cada conta considera pessoas e prazos diferentes.
O que, exatamente, fez a potência disparar?
O relatório internacional de 1992 admite que não se sabe com certeza. O mais provável, diz ele, é que tenha sido a entrada das barras de controle num momento crítico do teste.
Quando alguém poderá morar ali de novo?
Nenhuma das instituições consultadas dá um prazo. Em Belarus, o país vizinho, 211 vilas e povoados tiveram as restrições reduzidas, segundo a Associação Nuclear Mundial. E cerca de mil pessoas voltaram por conta própria para dentro da zona.
Verdade ou lenda?
“Os três mergulhadores morreram dias depois.”
Falso Um morreu em 2005. Os outros dois estavam vivos em 2019.
“A culpa foi só dos operadores.”
Meia verdade Eles erraram, mas o relatório internacional de 1992 deu muito mais peso ao projeto do reator do que o primeiro.
“A zona está cheia de animais mutantes.”
Exagero Não há monstros. Um relatório de 2006 diz que plantas e animais prosperam ali, mas registra alterações genéticas causadas pela radiação.
Fontes desta história
- Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA): relatório INSAG-7 (1992), relatório de 2006 e relatório sobre Goiânia (1988).
- UNSCEAR, comitê científico da ONU. Organização Mundial da Saúde e Fórum de Chernobyl (2005). Programa da ONU para o Meio Ambiente.
- Associação Nuclear Mundial (página atualizada em abril de 2026) e World Nuclear News. Comissão Reguladora Nuclear dos EUA.
- Usina Nuclear de Chernobyl, site oficial. Museu Nacional de Chernobyl. Presidência da Ucrânia, decreto 468/2019.
- National Security Archive (Universidade George Washington), documentos do governo soviético de 1986.
- Bulletin of the Atomic Scientists (1996 e 2019). Entrevista de O. Ananenko a Darmon Richter (2019). The Washington Post (1987). History.com.
- Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento. Eletronuclear. IAEA Bulletin (1986), artigo de técnicos suecos sobre Forsmark.
Fontes consultadas em 9 de outubro de 2026. As horas são as da usina; no Brasil eram sete horas a menos. A Ucrânia escreve Chornobyl; aqui usamos a forma mais conhecida no Brasil.
Créditos das imagens
1 AIEA (IAEA Imagebank), foto USFCRFC, 1986, CC BY-SA 2.0. 2 Jorge Franganillo, 2017, CC BY 2.0. 3 Laboratório Nacional de Argonne (EUA), domínio público. 4 AIEA (IAEA Imagebank), foto USFCRFC, 1986, CC BY-SA 2.0. 5 Serviço Geológico dos EUA (USGS), satélite Landsat 5, 29 de abril de 1986, domínio público. 6 AIEA (IAEA Imagebank), foto USFCRFC, 1986, CC BY-SA 2.0. 7 Justin Stahlman, 2006, CC BY 2.0. 8 Justin Stahlman, 2006, CC BY 2.0. 9 Hnapel, 25 de julho de 2018, CC0. 10 Usina Nuclear de Chernobyl, 2025, CC BY 4.0.
As imagens vieram do Wikimedia Commons. As imagens 1, 4 e 6 são do acervo da AIEA, com licença CC BY-SA 2.0: aqui elas só ganharam o tom do papel e continuam sob a mesma licença. Nenhuma imagem foi feita por inteligência artificial nem recortada.



