
Em 30 segundos
- Em outubro de 1962, um avião-espião dos Estados Unidos fotografou bases de mísseis nucleares soviéticos em Cuba, a cerca de 145 quilômetros da Flórida.
- O presidente Kennedy cercou a ilha com navios de guerra e exigiu a retirada dos mísseis. As duas potências ficaram à beira da guerra.
- No 13º dia, a União Soviética aceitou desmontar as bases. Uma parte do acordo ficou em segredo por mais de 25 anos.
Antes de piscar
Dois gigantes e uma ilha
Em 1962, dois países dividiam o mundo: os Estados Unidos e a União Soviética. Era a Guerra Fria. Os dois nunca entraram em guerra direta um contra o outro, mas cada um tinha bombas nucleares apontadas para o outro.
Os Estados Unidos tinham mais de 25 mil ogivas nucleares. A União Soviética tinha pouco mais de 3 mil. Ogiva é a parte do míssil que explode.
O presidente americano era John Kennedy, de 45 anos. O líder soviético era Nikita Khrushchev, de 68.
No meio dos dois estava Cuba. Em 1959, uma revolução derrubou o ditador Fulgencio Batista e levou Fidel Castro ao poder. A ilha fica a 90 milhas da Flórida, cerca de 145 quilômetros.
Castro se aproximou dos soviéticos. Em 17 de abril de 1961, cerca de 1.400 exilados cubanos, treinados pela CIA, desembarcaram na Baía dos Porcos para derrubá-lo. Dois dias depois, estavam derrotados.
Havia ainda os mísseis americanos. Os Estados Unidos mantinham 15 mísseis nucleares Júpiter na Turquia, país vizinho da União Soviética.
Em 1962, Khrushchev decidiu fazer o mesmo, em segredo: pôr mísseis nucleares em Cuba. As duas razões mais citadas são: proteger Cuba de outra invasão e diminuir a desvantagem soviética.
De Cuba, um míssil soviético alcançava Washington.
Entre setembro e outubro, navios soviéticos desembarcaram na ilha 42 mísseis do tipo R-12, que os americanos chamavam de SS-4. Com eles foram cerca de 42 mil militares soviéticos. As primeiras ogivas nucleares chegaram em 4 de outubro.

No domingo, 14 de outubro de 1962, o céu abriu. O major Richard Heyser cruzou o oeste de Cuba num U-2 e fez 928 fotografias em cerca de seis minutos.
No dia seguinte, os analistas olharam o filme. Perto de San Cristóbal havia três bases de mísseis em construção, com carretas compridas e lançadores.

Leia as etiquetas. “8 missile trailers”: oito carretas de mísseis. “Erector/launcher equipment”: equipamento para erguer e lançar. “Tent areas”: barracas.
Em números
- 13 dias, de 16 a 28 de outubro
- 145 km de Cuba à Flórida
- 42 mísseis R-12 levados para Cuba
- 928 fotos no voo de 14 de outubro
Na terça-feira, 16 de outubro, às 8h45, o assessor de segurança nacional, McGeorge Bundy, levou a notícia a Kennedy. O presidente ainda estava no quarto, de pijama, lendo o jornal.
O instante
Uma semana de segredo e um discurso
Kennedy reuniu um grupo de conselheiros que ficaria conhecido como ExComm. Durante uma semana, eles discutiram em segredo.
Os chefes militares queriam bombardear as bases e, depois, invadir Cuba.

No sábado, 20 de outubro, depois de horas de discussão, Kennedy escolheu outro caminho: cercar a ilha com navios, impedir a chegada de mais armas e exigir a retirada das que já estavam lá. Deu a ele outro nome: quarentena. “Bloqueio” é palavra de guerra: supõe que os países já estão em guerra.
Na segunda-feira, 22 de outubro de 1962, às 19h de Washington, Kennedy falou pelo rádio e pela televisão. O discurso durou 18 minutos.
No Brasil, pela hora de Brasília, eram 20h do mesmo dia.
Ele contou o que as fotos mostravam. Anunciou a quarentena: todo navio que levasse armas de ataque para Cuba seria mandado de volta. E avisou que um míssil nuclear lançado de Cuba contra qualquer país das Américas seria tratado como um ataque da União Soviética aos Estados Unidos, com resposta total.

Três círculos. O menor é o do avião bombardeiro Il-28. O do meio é o do míssil R-12 (SS-4), o que estava em Cuba. O maior é o do míssil R-14 (SS-5), que nunca chegou a Cuba.
Naquela noite, as forças americanas passaram ao nível 3 da DEFCON, a escala de prontidão para a guerra. A escala vai de 5 a 1. Quanto menor o número, mais perto da guerra.
Num piscar de olhos
Seis dias à beira
Na terça-feira, 23 de outubro, a Organização dos Estados Americanos (OEA) apoiou a quarentena. Segundo telegramas diplomáticos da época, o Brasil votou a favor, mas se absteve no trecho que autorizava o uso da força. Às 19h06, Kennedy assinou a ordem.
A quarentena começou a valer na quarta-feira, 24, às 10h. Naquela manhã, segundo um memorando da Casa Branca, o comando dos bombardeiros e dos mísseis nucleares americanos passou ao nível 2 da DEFCON, um degrau antes da guerra. Foi a primeira vez na história. Cerca de 60 bombardeiros com armas nucleares ficavam no ar o tempo todo.
Na quinta-feira, 25, a disputa foi para a ONU. O embaixador americano, Adlai Stevenson, perguntou ao soviético, Valerian Zorin, se o país dele negava ter posto mísseis em Cuba. Zorin se recusou a responder. Então a equipe de Stevenson mostrou as fotos.

Procure o cavalete. As fotos estão ao fundo, em três painéis.
Na sexta-feira, 26, à noite, chegou a Washington uma carta longa de Khrushchev. Propunha uma saída: os Estados Unidos prometeriam não invadir Cuba, e as armas soviéticas não seriam mais necessárias na ilha.
O sábado, 27 de outubro, ficou conhecido como Sábado Negro.
De manhã, a Rádio Moscou leu uma segunda mensagem de Khrushchev, mais dura. Agora ele queria uma troca: tiraria os mísseis de Cuba se os americanos tirassem os deles da Turquia.
Em Cuba, um míssil antiaéreo soviético derrubou o U-2 do major Rudolf Anderson. Ele morreu. A ordem de atirar partiu de generais soviéticos na ilha, sem consulta a Moscou.

Rudolf Anderson
O piloto do U-2
Major da Força Aérea, da Carolina do Sul. Tinha 35 anos. Era o seu sexto voo sobre Cuba.
Foi o único americano morto por fogo inimigo na crise.
Foto: Força Aérea dos EUA
No mar, navios americanos cercaram o submarino soviético B-59 e lançaram pequenas cargas explosivas, de sinalização, para obrigá-lo a subir. Segundo o National Security Archive, um centro de pesquisa de Washington, os americanos não sabiam: o submarino levava um torpedo com ogiva nuclear.

Olhe acima dele. Um helicóptero acompanha o submarino.
Kennedy decidiu responder à primeira carta de Khrushchev e deixar de lado a segunda. A resposta dizia: se a União Soviética retirasse as armas, com fiscalização da ONU, os Estados Unidos suspenderiam a quarentena e garantiriam não invadir Cuba.
Faltava a Turquia. Às 19h45, Robert Kennedy, irmão do presidente, recebeu em seu gabinete o embaixador soviético, Anatoly Dobrynin. Disse que os mísseis Júpiter sairiam da Turquia em quatro a cinco meses. Mas com uma condição: ninguém poderia saber.
No domingo, 28 de outubro, às 9h de Washington, a Rádio Moscou leu a resposta de Khrushchev. Ele tinha dado ordem de desmontar as armas, encaixotá-las e devolvê-las à União Soviética.
No Brasil, eram 11h da manhã. Os Estados Unidos tinham saído do horário de verão naquela madrugada.
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Depois
O que ficou combinado, e o que ficou escondido
Fidel Castro não tinha sido consultado sobre a retirada. Ficou furioso. O Brasil tentou ajudar. O presidente João Goulart mandou a Havana um enviado especial, o general Albino Silva, chefe da Casa Militar. Segundo telegramas diplomáticos da época, ele conversou cerca de duas horas com Castro, sem resultado concreto.
Em 1º de novembro, novas fotos mostraram as bases desfeitas, com o chão raspado por tratores.

Na primeira semana de novembro, os navios soviéticos começaram a levar os mísseis embora. A conferência foi feita no mar. Os mísseis viajavam no convés, e navios e aviões americanos chegavam perto para contar e fotografar. Contaram 42.

A outra metade do acordo foi cumprida em silêncio. Em abril de 1963, os mísseis Júpiter foram retirados da Turquia. A promessa feita a Dobrynin ficou em segredo por mais de 25 anos.
O susto mudou as regras. Em junho de 1963, os dois países combinaram uma linha direta entre Washington e Moscou, para falar depressa numa crise. Em 5 de agosto, assinaram em Moscou, com o Reino Unido, um tratado que proibiu testes nucleares na atmosfera, no espaço e debaixo d’água.
O tamanho do perigo só apareceu décadas depois. Em janeiro de 1992, numa conferência em Havana, um general soviético revelou que em Cuba havia também armas nucleares menores, de campo de batalha. Durante a crise, os americanos não sabiam delas.
Pelos documentos soviéticos reunidos pelo National Security Archive, eram 98 dessas ogivas menores. No total, segundo a Federation of American Scientists, havia em Cuba 158 ogivas nucleares. Nessa conta entram 24 que, pelo National Security Archive, nem saíram do navio.
De olhos abertos
O que ainda não se sabe
Fidel Castro pediu um ataque nuclear?
Na noite de 26 para 27 de outubro, Castro ditou uma carta a Khrushchev. Dizia esperar um ataque americano nas 24 a 72 horas seguintes. Acrescentava que, se os Estados Unidos invadissem Cuba, seria a hora de eliminar esse perigo. A Biblioteca Kennedy lê aí um pedido de ataque nuclear. A carta não pede isso com essas palavras.
O que aconteceu dentro do submarino B-59?
Um oficial que estava a bordo, Vadim Orlov, contou décadas depois que o capitão, Valentin Savitsky, mandou preparar o torpedo nuclear. Outro oficial, Vasili Arkhipov, o teria acalmado. Mas só existem relatos de memória.
Verdade ou lenda?
“Os navios ficaram frente a frente, e os soviéticos piscaram.”
Falso A frase famosa é do secretário de Estado, Dean Rusk. Mas, pelos registros reunidos pelo National Security Archive, os navios com mísseis tinham dado meia-volta na véspera, por ordem de Khrushchev.
“A crise durou 13 dias.”
Meia verdade Treze dias, de 16 a 28 de outubro, é a conta mais usada, a da Biblioteca Kennedy. Mas a quarentena foi até 20 de novembro. E as últimas ogivas só saíram de Cuba em 1º de dezembro, segundo o National Security Archive.
Fontes desta história
- Biblioteca John F. Kennedy (JFK Library). “Cuban Missile Crisis”; “World on the Brink”, páginas dos dias 16 a 28 de outubro de 1962; texto e gravação do discurso de 22 de outubro; “The Bay of Pigs”; “Nuclear Test Ban Treaty”; entrevista coletiva de 20 de novembro de 1962.
- Departamento de Estado dos EUA, Office of the Historian. “The Cuban Missile Crisis, October 1962”; “The Bay of Pigs Invasion and its Aftermath”; coleção Foreign Relations of the United States (FRUS), 1961–1963, volumes VI, X e XI e suplemento: cartas de Khrushchev e de Kennedy, atas das reuniões, memorando de Robert Kennedy sobre a conversa com Dobrynin.
- National Security Archive (Universidade George Washington). Dossiês sobre a crise: as ogivas, o submarino B-59, o U-2 de Rudolf Anderson, o voo de Charles Maultsby, os mísseis Júpiter, o telegrama de Dobrynin, a conferência de Havana de 1992; relatório do general Statsenko.
- Wilson Center, Digital Archive (edição documental CWIHP 17/18). Carta de Fidel Castro a Khrushchev, 26 de outubro de 1962; plano soviético de 24 de maio de 1962; telegramas brasileiros, mexicanos, chilenos e iugoslavos de outubro e novembro de 1962.
- CIA. James Hansen, “Soviet Deception in the Cuban Missile Crisis”; Sherman Kent, artigo na revista Studies in Intelligence, 1972; “The Bay of Pigs Invasion”.
- Arquivo Nacional dos EUA. Revista Prologue, 2002; documentos e fichas das fotos. The American Presidency Project (Universidade da Califórnia em Santa Bárbara): Proclamações 3504 e 3507.
- Council on Foreign Relations. James Lindsay, série “TWE Remembers”, os treze dias da crise. Miller Center (Universidade da Virgínia). Projeto Avalon (Universidade Yale).
- Federation of American Scientists e Arms Control Association: arsenais de 1962, ogivas em Cuba e acordo da linha direta.
- Força Aérea dos EUA e Air & Space Forces Magazine: os voos do U-2 e Rudolf Anderson. Universidade Clemson, papéis de Rudolf Anderson. U.S. Naval Institute, revista Naval History, 2022.
- Encyclopaedia Britannica. “John F. Kennedy”; “Nikita Khrushchev”; “Fidel Castro”; “Bay of Pigs invasion”. OTAN, cronologia de 1964 (a saída de Khrushchev).
- James Hershberg, estudo sobre o Brasil e a crise, Journal of Cold War Studies, 2004 (resumo na History News Network). Michael Dobbs, “One Minute to Midnight”, 2008 (trechos).
- O relógio: base de fusos horários da IANA (os Estados Unidos saíram do horário de verão em 28 de outubro de 1962; o Brasil não teve horário de verão naquele ano).
Fontes consultadas em 9 de outubro de 2026.
Créditos das imagens
1 Departamento de Estado dos EUA, acervo da Biblioteca John F. Kennedy, 3 de junho de 1961. 2 Força Aérea dos EUA, cerca de 1967 a 1970. 3 Governo dos EUA, foto de avião U-2; Arquivo Nacional, Biblioteca John F. Kennedy, 14 de outubro de 1962. 4 Cecil Stoughton, Casa Branca; Biblioteca John F. Kennedy, 29 de outubro de 1962. 5 Agência de Inteligência de Defesa dos EUA (DIA), mapa publicado em 2011. 6 Governo dos EUA, fotógrafo não identificado, 25 de outubro de 1962. 7 Força Aérea dos EUA, sem data. 8 Marinha dos EUA; Arquivo Nacional, 28 ou 29 de outubro de 1962. 9 Força Aérea dos EUA, 1º de novembro de 1962. 10 Marinha dos EUA, Museu Nacional da Aviação Naval, 10 de novembro de 1962.
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