Pisca News

Informação num piscar de olhos.

14 e 15 de abril de 1912

Titanic: como o navio “praticamente inafundável” afundou em menos de três horas?

Era a primeira viagem do navio. Ele bateu num iceberg às 23h40 e afundou menos de três horas depois, com mais de 2.200 pessoas a bordo e lugar nos botes para 1.178.

Pisca News

Leitura de 9 minutos

Fontes no fim

O instante em que tudo mudou

23h40

14 de abril de 1912
Atlântico NorteHora do navio, pelo relatório britânico. O americano registra 23h46.

O Titanic navegando, visto de lado, com as quatro chaminés.
Southampton, Inglaterra, 10 de abril de 1912. O Titanic deixa o porto na primeira viagem. Quatro dias depois, bateria num iceberg. Foto: F. G. O. Stuart

Em 30 segundos

  1. Na noite de 14 de abril de 1912, o Titanic bateu num iceberg. Era a primeira viagem do navio.
  2. Afundou às 2h20 da madrugada, menos de três horas depois.
  3. Havia mais de 2.200 pessoas a bordo e lugar nos botes para 1.178. Cerca de 1.500 morreram.

Antes de piscar

Um gigante de 269 metros

O Titanic nasceu em Belfast, na Irlanda (hoje Irlanda do Norte), no estaleiro Harland & Wolff. Era um navio de passageiros da companhia britânica White Star Line. O casco foi lançado ao mar em 31 de maio de 1911.

A proa do Titanic dentro da estrutura de aço do estaleiro.
Belfast, maio de 1911. O casco do Titanic no estaleiro, pronto para ir ao mar. Na proa, dá para ler o nome do navio. Foto: Robert Welch

Tinha cerca de 269 metros de comprimento e 16 compartimentos à prova d’água. A imprensa técnica da época dizia que ele era “praticamente inafundável”.

Desenho técnico do navio visto de lado.
O navio de lado, num desenho técnico de 1911. A planta servia para os dois irmãos, Olympic e Titanic. As letras de A a F, à direita, marcam os andares (conveses). Revista Engineering, 26 de maio de 1911

Em 10 de abril de 1912, ao meio-dia e quinze, o Titanic saiu de Southampton, na Inglaterra, rumo a Nova York. Parou em Cherbourg, na França, e em Queenstown, na Irlanda. Levava mais de 2.200 pessoas, entre passageiros e tripulantes.

Retrato do capitão Smith, de barba branca, com quepe e uniforme branco.

Edward J. Smith

O capitão

Comandava o Titanic na primeira viagem. Morreu no naufrágio, e o corpo nunca foi encontrado.

O inquérito britânico disse que ele cometeu “um erro muito grave” ao manter a rota e a velocidade apesar dos avisos de gelo. Mas não o acusou de negligência.

Foto publicada em livro de 1912

Em números

  • 269 m de comprimento
  • 2.200+ pessoas a bordo
  • 20 botes salva-vidas
  • 1.178 lugares nos botes

O instante

“Iceberg bem à frente!”

O domingo, 14 de abril, trouxe vários avisos de gelo, mandados pelo rádio por outros navios. Um deles, o do navio Mesaba, às 21h40, não chegou à ponte de comando.

Perto das 23h, o navio Californian, parado no meio do gelo, tentou avisar de novo. O telegrafista do Californian contou depois o que ouviu de volta: “Cale a boca, cale a boca, estou ocupado.”

A noite era sem lua e o mar estava calmo. O Titanic seguia a cerca de 22 nós, uns 41 quilômetros por hora.

Pouco antes das 23h40, o vigia Frederick Fleet tocou o sino três vezes e telefonou para a ponte: “Iceberg bem à frente!” O navio começou a virar, mas não deu tempo: bateu no iceberg pelo lado direito.

Hora do navio. Pelo relatório britânico de 1912, a batida foi às 23h40. O relatório americano registra 23h46.

Um iceberg baixo e comprido no mar.
Um iceberg fotografado perto do local do naufrágio, em 1912. Não se sabe se é o mesmo em que o Titanic bateu. Arquivo Nacional dos EUA

Thomas Andrews, um dos projetistas do navio, examinou os estragos e avisou: o Titanic tinha de uma a duas horas.

Num piscar de olhos

Duas horas e quarenta minutos

  • 23h40 Batida no iceberg.
  • 0h15 Primeiro pedido de socorro pelo rádio.
  • 0h45 Desce o primeiro bote. Sobem os primeiros foguetes de socorro.
  • 2h05 Desce o último bote.
  • 2h17 Última mensagem de rádio.
  • 2h20 O Titanic afunda.
  • 4h10 O navio Carpathia recolhe o primeiro bote.

Horários do relatório britânico de 1912. O próprio relatório avisa que os horários depois da batida são aproximados.

Havia 20 botes, com lugar para 1.178 pessoas. A bordo, mais de 2.200. E a lei pedia ainda menos: 16 botes. A regra era de 1894 e parava nos navios de 10 mil toneladas. O Titanic tinha mais de 46 mil.

Desenho do Titanic afundando de proa, com a popa no ar, botes e icebergs em volta.
O naufrágio, desenhado em 1912 pelo alemão Willy Stöwer. Ele não estava lá: imaginou a cena para uma revista. Ilustração: Willy Stöwer, revista Die Gartenlaube, 1912

Procure o erro. Sai fumaça preta da quarta chaminé, a mais alta no desenho. No navio de verdade, ela não soltava fumaça das caldeiras.

A água estava a cerca de 2 graus negativos. Segundo alguns relatos, a banda do navio tocou até pouco antes do fim. Nenhum dos músicos sobreviveu.

Bote cheio de pessoas com coletes salva-vidas, visto de cima.
Manhã de 15 de abril de 1912. Um bote do Titanic chega ao navio Carpathia, fotografado de cima por um passageiro. Segundo o Arquivo Nacional dos EUA, é o último bote que conseguiu descer. Arquivo Nacional dos EUA

O navio Carpathia estava a 58 milhas náuticas dali, uns 107 quilômetros. O capitão, Arthur Rostron, mandou o navio à velocidade máxima. Chegou por volta das 4 da manhã e recolheu pouco mais de 700 pessoas.

Pessoas de casaco no convés de um navio.
Sobreviventes do Titanic no convés do Carpathia, abril de 1912. Bain News Service, Biblioteca do Congresso dos EUA

Leia a foto. A frase em inglês, no alto, diz: “Sobreviventes do Titanic no Carpathia”. É a legenda que a agência de fotos pôs no negativo.

Morreram cerca de 1.500 pessoas.

Quem se salvou

Parte de cada grupo que sobreviveu, segundo o relatório britânico de 1912.

1ª classe62%
2ª classe41%
3ª classe25%
Tripulação24%

Gostando da história? Receba a próxima no seu e-mail, de graça.

Depois

O mundo mudou as regras

O Carpathia chegou a Nova York na noite de 18 de abril. Os Estados Unidos e o Reino Unido abriram investigações. O inquérito americano ouviu 82 testemunhas; o britânico, 97.

Primeira página de jornal com manchete em letras grandes sobre o naufrágio.
Nova York, 16 de abril de 1912. A manchete diz: “1.340 morrem no naufrágio do Titanic; só 886, na maioria mulheres e crianças, são salvos”. New-York Tribune, Biblioteca do Congresso dos EUA

Os números estavam errados. No alto da coluna da esquerda, o mesmo jornal fala em 675 salvos, também errado.

Em 20 de janeiro de 1914, 13 países assinaram em Londres a primeira convenção internacional de segurança no mar. Ficou conhecida pela sigla SOLAS. Previa lugar nos botes para todos a bordo e rádio ligado dia e noite.

A Primeira Guerra Mundial impediu que ela entrasse em vigor. Outras versões vieram depois. A de 1974, com emendas, vale até hoje.

Também nasceu a Patrulha Internacional do Gelo, que ainda vigia os icebergs do Atlântico Norte.

Menino na calçada segura um cartaz de jornal; homens de chapéu leem jornais ao redor.
Londres, 16 de abril de 1912. O jornaleiro Ned Parfett anuncia a tragédia diante do escritório da White Star Line, a dona do navio. O cartaz diz: “Desastre do Titanic. Grande perda de vidas.” Autor desconhecido, cópia de época

Os destroços só foram achados em 1º de setembro de 1985, pela expedição de Robert Ballard e Jean-Louis Michel. Estão a cerca de 3.800 metros de profundidade. O navio se partiu em dois grandes pedaços, a proa e a popa.

De olhos abertos

O que ainda não se sabe

Quantos morreram?

Cerca de 1.500. Os dois relatórios oficiais de 1912 trazem números diferentes: 1.490 no britânico e 1.517 no americano. As listas de bordo tinham nomes escritos errado, nomes falsos e gente fora da conta.

O Californian podia ter salvado alguém?

O navio estava parado no gelo, na mesma região, e seus oficiais viram foguetes. Tentaram contato com uma lâmpada de sinais, mas o navio não foi em socorro naquela noite. Em 1912, o inquérito britânico concluiu que ele podia ter salvado muitas vidas, senão todas. Em 1992, uma nova análise do governo britânico disse que, mesmo agindo, ele provavelmente chegaria depois do naufrágio.

Qual foi a última música?

Muitos sobreviventes falaram no hino “Nearer, My God, to Thee”. O telegrafista Harold Bride, que se salvou, citou outra: “Autumn”. Ninguém sabe ao certo.

Os rebites eram fracos?

Rebites de ferro tirados dos destroços tinham o triplo da impureza aceita hoje, segundo um estudo do instituto americano NIST. Em 2008, o estaleiro contestou: disse que não havia nada de errado com o navio quando ele saiu de lá.

Havia um incêndio a bordo?

Um foguista contou em 1912 que o fogo num depósito de carvão teria começado ainda em Belfast e só foi apagado no sábado, três dias depois da partida. Em 2017, o jornalista Senan Molony defendeu que o fogo enfraqueceu o casco. Dave Hill, ex-secretário da British Titanic Society, respondeu que o Titanic afundaria do mesmo jeito.

Existe um filme da viagem?

O único filme verdadeiro do navio que sobrou mostra o Titanic ainda em Belfast, antes da viagem. Um cineasta, William Harbeck, estava a bordo e morreu. Se ele filmou a travessia, o filme se perdeu.

Verdade ou lenda?

“Diziam que o navio era inafundável.”

Quase Em 1911, uma revista técnica e um jornal escreveram “praticamente inafundável”, e havia quem dissesse só “inafundável”. A fama cresceu mesmo depois do desastre.

“A terceira classe ficou trancada lá embaixo.”

Sem prova O inquérito britânico não achou prova de que seguraram a terceira classe lá embaixo. Mas dois sobreviventes contaram ao Senado americano que encontraram um portão fechado. Só 1 em cada 4 passageiros da terceira classe se salvou.

“Trocaram o Titanic pelo navio irmão, o Olympic.”

Falso Peças tiradas dos destroços trazem o número 401, o do Titanic. O do Olympic era 400.

Fontes desta história

  1. Senado dos Estados Unidos. Relatório do inquérito sobre o Titanic (Senate Report nº 806), 1912. Titanic Inquiry Project.
  2. Wreck Commissioner (Reino Unido). Relatório sobre a perda do Titanic, 30 de julho de 1912. Titanic Inquiry Project.
  3. Depoimentos de 1912 de Frederick Fleet, Cyril Evans, Charles Hendrickson, Thomas Ranger, Daniel Buckley e Olaus Abelseth. Titanic Inquiry Project.
  4. Encyclopaedia Britannica. “Titanic”, “Edward J. Smith”, “Timeline of the Titanic’s Final Hours” e “Did Anyone Really Think the Titanic Was Unsinkable?”.
  5. Royal Museums Greenwich. “RMS Titanic facts” e “RMS Titanic fact sheet”.
  6. History.com. “The Titanic: Deaths, Dates, Sinking & Facts”.
  7. Titanic Belfast. Série “On This Day”, 18 de abril de 1912.
  8. Arquivo Nacional dos EUA. “Titanic”, revista Prologue, 2012; exposição “American Originals”; DocsTeach (registro 278334).
  9. Biblioteca do Congresso dos EUA. “Failure to Update the Law a Titanic Mistake”, 2012; acervo Bain (ggbain 11211); Chronicling America (New-York Tribune, 16 de abril de 1912).
  10. Organização Marítima Internacional (IMO). Convenção SOLAS; “Surviving disaster – life-saving at sea”, 2000.
  11. Guarda Costeira dos EUA. International Ice Patrol.
  12. Woods Hole Oceanographic Institution. “1985 Discovery of RMS Titanic”. NOAA, página sobre a história do navio.
  13. Marine Accident Investigation Branch (Reino Unido). “RMS Titanic: Reappraisal of Evidence Relating to SS Californian”, 1992.
  14. NIST (EUA). “NIST Reveals How Tiny Rivets Doomed a Titanic Vessel”. RTÉ News, 18 de abril de 2008 (resposta do estaleiro).
  15. Smithsonian Magazine. “A Coal Fire May Have Helped Sink the ‘Titanic’”, 5 de janeiro de 2017.
  16. Snopes (a última música; “inafundável”). PolitiFact, 4 de dezembro de 2024 (a troca pelo Olympic).
  17. The Bioscope. “And the Ship Sails On”, 5 de abril de 2012 (o filme). Getty Images, British Film Institute e Encyclopedia Titanica (a foto de Ned Parfett).

Fontes consultadas em 8 de outubro de 2026.

Créditos das imagens

1 F. G. O. Stuart (1843–1923), 1912. 2 Robert Welch (1859–1936), 1911; cópia da Biblioteca do Congresso dos EUA. 3 Revista Engineering, vol. 91, 26 de maio de 1911. 4 Livro “Wreck and Sinking of the Titanic”, 1912; Internet Archive. 5 e 7 Arquivo Nacional dos EUA (NARA), registros 278334 e 278338. 6 Willy Stöwer (1864–1931), revista Die Gartenlaube, 1912. 8 Bain News Service, 1912; Biblioteca do Congresso dos EUA. 9 New-York Tribune, 16 de abril de 1912; Biblioteca do Congresso dos EUA. 10 Autor desconhecido, 1912; cópia de época do acervo Spaarnestad.

As imagens vieram do Wikimedia Commons e estão em domínio público; a imagem 4 consta lá como “sem restrições de direitos conhecidas”. Nenhuma foi feita por inteligência artificial nem recortada. Só mudaram o tamanho, o contraste e o tom.

Capa do Almanaque Pisca · História, volume 3: Desastres e enigmas

Almanaque Pisca · História · Volume 3

Esta história está no livro, ilustrada página por página.

No volume 3, "Desastres e enigmas", ela vem com gravuras, fotos de época e mais 9 histórias. Ou leve as 30 histórias na edição completa, por R$ 34,90.

Conhecer o livroR$ 14,90 em PDF

Mande para quem gosta de história:

WhatsAppFacebook

Gostou do Pisca?

Cada história leva horas de pesquisa, checagem de fontes e montagem, feitas com muito carinho. Se quiser ajudar o Pisca a continuar, mande um Pix de qualquer valor, a partir de R$ 1.

QR Code do Pix do Pisca News

Chave Pix (CNPJ)
51.336.076/0001-23

Recebedor: JM&L Representações

Obrigado por apoiar!

O Pisca News é feito por José Miguel Vilela de Figueiredo, com o apoio de ferramentas de inteligência artificial na pesquisa, na organização e na produção do conteúdo. Cada fato é conferido nas fontes listadas acima. Saiba como o Pisca trabalha.

Newsletter do Pisca

Histórias da semana, no seu e-mail.

Grátis. Uma seleção semanal, com resumos e links para ler as histórias completas no blog, sempre com data e fontes. De presente, o capítulo do Hindenburg do Almanaque Pisca, em PDF. Você pode cancelar sua inscrição pelo link no fim de qualquer e-mail.






Usamos seu e-mail para enviar as histórias do Pisca. Veja a política de privacidade.

Leia também

Todas as histórias