
Em 30 segundos
- Napoleão morreu em Santa Helena em 5 de maio de 1821. Os registros médicos e de autópsia estão no centro da discussão sobre câncer gástrico e outras hipóteses.
- Análises de fios atribuídos a ele encontraram concentrações elevadas de arsênico. Um estudo italiano de 2008 usou ativação neutrônica num pequeno reator para comparar amostras.
- Níveis altos em períodos anteriores da vida e em familiares mudam a interpretação. Detectar exposição a um elemento não identifica sozinho a fonte, a intenção de outra pessoa ou a causa da morte.
Antes de piscar
Uma morte histórica virou uma pergunta de laboratório
Napoleão morreu em Longwood, na ilha de Santa Helena, em 5 de maio de 1821. No dia seguinte, foi realizada uma autópsia. A Fundação Napoleão reúne documentos e estudos sobre esse episódio, que também alimentou versões de envenenamento.
Os fios de cabelo preservados e atribuídos ao imperador parecem oferecer uma forma de voltar ao caso. Eles são uma amostra material, que pode ser submetida a análises químicas. Mas uma amostra não traz, sozinha, toda a explicação de uma morte.
É preciso saber de qual período ela vem, como foi conservada, que método foi usado e com o que seu resultado será comparado. O estudo do cabelo e a leitura dos registros médicos procuram responder perguntas diferentes.
O instante
O arsênico estava presente; o significado continuava em debate
Em 2001, Pascal Kintz e colegas publicaram uma nova série de análises que interpretava os resultados como exposição crônica ao arsênico. A preocupação com os fios não começou no estudo italiano de 2008.
Um trabalho posterior de Kintz, Ginet e Cirimele, publicado em 2006, examinou duas amostras por espectrometria de massas. Encontrou 42,1 e 37,4 nanogramas de arsênico por miligrama de cabelo. O resumo descreve essas concentrações como cerca de quarenta vezes os valores normais utilizados na comparação.
Os autores consideraram os resultados evidência de exposição significativa. A informação química, porém, não equivale automaticamente a identificar uma ação criminosa. Método, contexto histórico e outras amostras entram na interpretação.
O número de quarenta vezes tem uma referência definida naquele artigo. Compará-lo a outro multiplicador exige conhecer a população e os valores de referência de cada estudo, em vez de tratar todos os “normais” como um denominador único.
Num piscar de olhos
Um reator ajudou a medir os fios
O estudo de Clemenza, Fiorini e colegas foi publicado em 2008 na revista italiana Il Nuovo Saggiatore. As fichas das universidades de Milão-Bicocca e Pavia identificam o trabalho e seus autores.
Materiais institucionais do INFN descrevem a análise por ativação neutrônica no reator TRIGA de Pavia. Nessa técnica, a interação com nêutrons permite reconhecer elementos por suas emissões características e estimar sua presença na amostra. O reator funciona como ferramenta analítica; não como uma experiência sobre o corpo de Napoleão.
A comparação incluiu fios de outros períodos da vida do imperador e de seu filho e da primeira esposa. As concentrações eram altas em relação às amostras modernas, mas comparáveis entre os materiais históricos.
O resultado de uma amostra muda quando ganha companhia. Se o elemento já aparece em períodos anteriores e em outras pessoas, sua presença depois da morte deixa de ser uma pista exclusiva dos últimos dias.

Depois
Outra investigação começou nos registros de autópsia
Em 2007, Alessandro Lugli e colegas apresentaram uma análise clínico-patológica baseada na história médica, nos relatos de autópsia e em documentos históricos. Para comparação, usaram dados de 135 pacientes com câncer gástrico.
Os autores interpretaram a doença de Napoleão como um carcinoma gástrico avançado. Essa conclusão usa a descrição das lesões e da evolução clínica; não decorre apenas da quantidade de arsênico num fio.
O material didático do INFN também apresenta o câncer do estômago como causa provável e considera seus dados contrários à hipótese de homicídio por arsênico. O texto conserva essas interpretações atribuídas aos pesquisadores, sem convertê-las em uma perícia nova realizada pelo Pisca.
As análises históricas têm limites de documentação e conservação. Concentrar a discussão numa única frase — “havia arsênico” — apaga tanto os controles das medições quanto as evidências clínicas usadas em outra linha de investigação.
De olhos abertos
O que o cabelo responde e o que não responde
Todos os níveis eram exatamente iguais?
Não é essa a conclusão necessária. O estudo italiano descreve valores comparáveis entre as amostras históricas. Uma apresentação do INFN distingue inclusive concentrações maiores depois da morte das encontradas em fios da época da ilha de Elba. Comparável não significa idêntico.
Os papéis de parede foram identificados como a fonte definitiva?
As fontes aqui usadas não estabelecem uma origem única para todo o arsênico medido. O Reel menciona materiais da época como suspeitos; isso não prova o caminho pelo qual o elemento chegou a cada amostra.
O reator resolveu sozinho a causa da morte?
Não. Ele ajudou a medir elementos nas amostras. Causa de morte e intenção criminosa exigem integrar química, história clínica, autópsia e documentação. A conclusão sobre câncer gástrico vem de uma investigação distinta dos fios.
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Fontes desta história
- Clemenza e colegas — Estudo de ativação neutrônica de 2008, ficha Milão-Bicocca. Referência original: Il Nuovo Saggiatore 24(1–2),19–30. A ficha bibliográfica não oferece o texto integral.
- INFN Milão — Interaction of Neutrons, estudo de Napoleão. Material institucional, seção sobre Napoleão: TRIGAPavia, comparação de períodos/familiares e conclusão dos pesquisadores. Não é um novo estudo de 2008.
- Kintz e colegas — Une nouvelle série d’analyse des cheveux de Napoléon,2001. Artigo original que interpreta a série como exposição crônica. Não usado para atribuir o multiplicador 40 ao ano 2001.
- Kintz, Ginet e Cirimele — Multi-element screening,2006. Análise original de duas amostras:42,1/37,4 ng/mg e comparação de quarenta vezes, com métodoICP-MS.
- Lugli e colegas — Napoleon Bonaparte’s gastric cancer,2007. Análise clínico-patológica retrospectiva: documentos/autópsia e comparação com 135 pacientes. Resultado atribuído aos autores.
- Fundação Napoleão — Dossiê sobre a morte de Napoleão. Cronologia documental de maio de 1821 e apresentação do conjunto de fontes históricas.
Fontes consultadas em 12 de outubro de 2026.
Créditos das imagens
1 Charles de Steuben. Domínio público — reprodução de obra histórica. 2 Paul Delaroche. Domínio público — reprodução de obra histórica.
Duas reproduções de pinturas históricas em domínio público, identificadas por autor e data da obra. São representações artísticas posteriores, não fotografias de Napoleão ou provas médicas. Nenhuma imagem foi gerada por inteligência artificial ou retocada pelo Pisca.




